Entre o like e a política pública: como a juventude conectada pode se aproximar da gestão pública
Hoje, mais do que nunca, a política está na palma da mão. Vídeos curtos explicam propostas, influenciadores comentam decisões do governo, campanhas eleitorais circulam pelas redes e mobilizações populares ganham força em questão de horas. Para as novas gerações, o contato com o debate público acontece também nos feeds, nos stories, nos reels e nos grupos de mensagens, para além dos espaços tradicionais de participação política.
Uma pesquisa do DataSenado aponta que, entre os brasileiros de 16 a 29 anos, 72% apontam os meios digitais como sua principal fonte de notícias e atualidades, percentual que cai para 54% quando considerada a população pesquisada como um todo. Entre os jovens que têm os meios digitais como principal fonte de informação, o Instagram aparece na frente, citado por 47% dos entrevistados.
Os números mostram a importância dos canais digitais na relação dos jovens com as notícias, mas não significam, por si só, que esse público participe mais da política ou tenha maior conhecimento sobre o funcionamento do Estado.
Uma pauta pode ganhar repercussão, reunir pessoas em torno de uma causa e pressionar autoridades. Entretanto, a questão é entender como esse contato com o debate público se relaciona com outras formas de engajamento cívico, a exemplo de acompanhar decisões, conhecer as responsabilidades das esferas de governo, apresentar demandas e avaliar as respostas recebidas.
O cenário atual

O ambiente digital facilita o acesso a notícias e opiniões, mas também é um espaço em que conteúdos de diferentes qualidades circulam rapidamente. O levantamento Panorama Político 2024: Notícias falsas e Democracia, também realizado pela DataSenado, investigou a percepção dos brasileiros sobre esse cenário. Entre as pessoas com 16 anos ou mais, 67% disseram ter encontrado, nos seis meses anteriores à pesquisa, notícias nas redes sociais que suspeitavam ser falsas. Entre os usuários dessas plataformas, metade considerava difícil reconhecer as chamadas fake news.
O levantamento também identificou diferenças associadas à escolaridade. Cerca de 63% das pessoas com ensino fundamental incompleto consideram difícil identificar notícias falsas, ante 39% daquelas com ensino superior completo. Os resultados indicam que a relação com a informação também envolve condições de acesso ao conhecimento e recursos para avaliar criticamente os conteúdos.
Embora os dados não sejam específicos sobre os jovens, ajudam a contextualizar o ambiente em que diferentes gerações formam opiniões e acompanham assuntos de interesse público. A frequência com que uma informação circula ou o número de compartilhamentos que recebe não comprovam sua veracidade. Da mesma forma, ter contato com uma notícia não significa necessariamente conhecer seu contexto ou compreender as decisões públicas relacionadas ao assunto.
Isso não torna as redes sociais incompatíveis com a formação de uma opinião informada. Elas podem ampliar o acesso a temas de interesse coletivo, dar visibilidade a problemas e aproximar cidadãos de diferentes perspectivas. A questão é observar como essas informações se articulam com outras fontes e com oportunidades de aprofundamento.
O estudo Next Generation Brazil 2025, realizado pelo British Council, revela que 69% dos jovens entrevistados apontaram professores como fontes de informação em que confiam, percentual superior ao registrado para familiares (58%), televisão (55%), redes sociais (39%) e WhatsApp (35%). A pesquisa ouviu jovens de 16 a 35 anos.
O resultado aponta que, mesmo em um cenário de forte presença digital, fontes de informação e espaços de aprendizagem para além das plataformas continuam relevantes. Ele também ajuda a ampliar a discussão, visto que compreender o debate público não depende apenas dos canais pelos quais as notícias chegam, mas das oportunidades de contextualizar informações, confrontar perspectivas e aprofundar pautas.
Participar também é ser ouvido

Prefeito realiza reunião com jovens do Comitê de Participação Adolescente. Crédito da Imagem: Prefeitura de Toledo (PR)
A participação política assume diferentes formas, que vão desde o voto ao acompanhamento das decisões governamentais, passando pela atuação em organizações, mobilizações coletivas e espaços de consulta pública. No caso dos jovens, o estudo do British Council ajuda a observar tanto as formas de envolvimento quanto a percepção que esse público tem de sua própria influência.
Apenas 5% dos entrevistados consideram que a voz da juventude é ouvida e se traduz em ações concretas. Em contrapartida, 55% sentem que suas opiniões são ignoradas ou consideradas apenas superficialmente. O levantamento também aponta que 33% não confiam no sistema político e apenas 7% afirmam confiar plenamente nele.
Os dados revelam ainda uma percepção de distância entre os jovens e as instituições políticas. Não significam que essa população esteja alheia à política, até porque, entre os entrevistados, 54% disseram ter votado na última eleição e 44% afirmaram ter acompanhado debates políticos. Ao mesmo tempo, 18% relataram não ter participado de nenhuma das atividades políticas consideradas no levantamento (mencionadas acima).
A pesquisa também investigou o que poderia estimular maior envolvimento. Para 24% dos jovens, o incentivo à discussão política nas escolas favoreceria a participação; o mesmo percentual mencionou plataformas políticas transparentes. Outros 23% apontaram a ampliação das oportunidades de interação com políticos.
Essa discussão também aparece na pesquisa Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O material identificou que 69% das pessoas que sentem ter voz nas decisões do governo relatam confiança alta ou moderadamente alta na administração nacional. Entre aquelas que não sentem ter essa possibilidade, o percentual é de 22%.
Esses dados servem para dimensionar a relação entre a percepção de influência política e a confiança nas instituições. A associação identificada não prova que ampliar a participação resulte automaticamente em maior confiança; indica, porém, que a possibilidade de ser ouvido é uma dimensão importante dessa relação.
O que cabe à gestão pública?

Jovens participando do Conselho da Juventude na Câmara Municipal. Crédito da Imagem: Prefeitura de Ipatinga (MG)
As pesquisas apontam três aspectos importantes para a relação entre juventude e gestão pública: acesso à informação confiável e de qualidade, oportunidades de participação e percepção de que as opiniões são consideradas nas decisões. Embora não meçam diretamente o conhecimento dos jovens sobre políticas públicas, os estudos ajudam a compreender as condições em que se informam e se relacionam com as instituições.
Para a gestão pública, isso envolve tornar as informações sobre decisões, recursos e resultados acessíveis, além de oferecer canais de participação e dar transparência aos encaminhamentos. Na pesquisa da OCDE, 39% dos entrevistados, acreditam que consultas públicas podem influenciar as decisões do governo.
A formação para a participação cidadã também importa. O incentivo à discussão política nos locais de ensino foi apontado por jovens ouvidos pelo British Council como um fator que poderia ampliar seu envolvimento. Escolas, organizações da sociedade civil e instituições públicas podem contribuir para esse processo, criando oportunidades de conhecer o funcionamento do Estado e discutir questões de interesse coletivo.
Aproximar as novas gerações da gestão pública, portanto, vai além de construir presença nas redes sociais. É preciso oferecer informações acessíveis, criar canais de diálogo e dar transparência à forma como as contribuições da população são consideradas.
Experiências governamentais de engajamento cívico juvenil
O incentivo à participação da juventude do cotidiano político e decisório da cidade pode se traduzir em diversas ações, como a criação de espaços de representação estudantil, a oferta de formação para jovens lideranças e o apoio a projetos desenvolvidos pelos próprios estudantes.
Algumas dessas iniciativas, estimuladas por diferentes esferas de governo, mostram como o poder público pode apoiar o protagonismo juvenil e abrir caminhos para que os jovens participem das decisões que afetam seu cotidiano.
Conheça alguns exemplos:
1. Programa Nacional de Grêmios Estudantis, do MEC
Em abril de 2026, o Ministério da Educação instituiu o Programa Nacional de Grêmios Estudantis – Participa Jovem Educação, por meio da Portaria MEC nº 336. A iniciativa prevê apoio técnico e financeiro às redes públicas para fortalecer os grêmios, além de formação para lideranças estudantis, gestores e professores. Entre as possibilidades de apoio, destacam-se repasses pelo Plano de Ações Articuladas (PAR) e editais específicos. A proposta é ampliar a participação dos estudantes nas decisões da vida escolar e fortalecer a gestão democrática.
2. Mato Grosso do Sul investe nos grêmios estudantis
Em 2025, o Governo do Mato Grosso do Sul destinou R$ 500 a cada um dos 341 grêmios estudantis da rede estadual, alcançando escolas dos 79 municípios do estado. Os recursos foram destinados a projetos elaborados pelos próprios estudantes, com foco na prevenção da violência contra a mulher e na promoção de uma cultura de paz. A iniciativa foi acompanhada de uma formação de 40 horas para estudantes gremistas e professores, que resultou em atividades como rodas de conversa, palestras, debates e produções audiovisuais.
3. Município de São Paulo fortalece grêmios e gestão democrática nas escolas
Na rede municipal de São Paulo, os grêmios estudantis estão presentes em todas as escolas de Ensino Fundamental e Médio desde 2023, totalizando 602 agremiações. A Secretaria Municipal de Educação ampliou o repasse anual destinado a cada grêmio de R$ 5 mil para R$ 10 mil. A utilização dos recursos é definida pelos próprios estudantes, em diálogo com colegas, professores e equipes gestoras. A prefeitura também promove encontros municipais para troca de experiências e formação, reunindo milhares de participantes.
E você, como tem incentivado o engajamento da juventude na gestão pública e na criação de políticas públicas no seu território? Conta pra gente nos comentários!
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