O debate sobre o futuro econômico e social do Brasil costuma ser pautado por urgências fiscais de curto prazo, mas uma mudança irreversível está redesenhando o destino do país: a transição demográfica. A velocidade com que a estrutura etária da população brasileira está se transformando não encontra paralelos na história recente e a realidade é que o envelhecimento populacional já impõe desafios concretos ao mercado de trabalho, à sustentabilidade das contas públicas e à organização das famílias brasileiras.
Discutir políticas de renda e proteção social para um país que envelhece rapidamente não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia para o desenvolvimento. Com a desaceleração do crescimento da população em idade ativa, o desenvolvimento econômico dependerá menos da expansão da força de trabalho e mais da capacidade do Brasil de aumentar sua produtividade, formar capital humano e adaptar seus sistemas de proteção social a uma nova realidade demográfica. Compreender essa transformação exige olhar para essas agendas de forma integrada.
Este artigo analisa como o envelhecimento da população redefine as prioridades do desenvolvimento brasileiro, da produtividade e da primeira infância à construção de uma política de cuidados compatível com uma sociedade mais longeva.
O Brasil está preparado para envelhecer?

Crédito da Imagem: Correio do Povo
O ponto de partida para essa reflexão desafia pesquisadores e formuladores de políticas públicas há décadas: o Brasil corre o risco de envelhecer antes de se tornar rico. Enquanto países europeus levaram cerca de um século para dobrar a proporção de idosos em suas populações — período que permitiu consolidar economias desenvolvidas e estruturar sistemas de proteção social robustos —, o Brasil atravessa essa mesma transformação em pouco mais de duas décadas. A velocidade da transição demográfica reduz o tempo disponível para adaptar políticas públicas, fortalecer instituições e preparar a economia para essa nova realidade, marcada por restrições fiscais e pela persistência de profundas desigualdades sociais.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, em 2023, pessoas com 60 anos ou mais já correspondiam a 15,6% da população brasileira (cerca de 33 milhões de habitantes), e a tendência é de crescimento acelerado. De acordo com a entidade, em 2070, esse grupo deve chegar a 37,8% da população, ou seja, mais de um terço dos brasileiros estará nessa faixa etária.
A consequência mais urgente dessa mudança é o encolhimento da força de trabalho. O IBGE projeta que, em 2042, o Brasil encerrará oficialmente o chamado “bônus demográfico” — período em que a proporção de pessoas em idade produtiva supera a de dependentes. Essa vantagem, que por décadas favoreceu o crescimento econômico e a expansão de políticas públicas, está se esgotando. Sem o fôlego dessa janela de oportunidade, o desenvolvimento do país dependerá de outras alavancas, como o aumento da produtividade, a qualificação da mão de obra e a capacidade do Estado de se reorganizar.
Como sustentar crescimento econômico com menos pessoas em idade produtiva?

Crédito da Imagem: R7
Com a redução da população em idade de trabalhar nas próximas décadas, a principal questão é quanto cada trabalhador será capaz de produzir. Em outras palavras, o crescimento econômico do país dependerá da produtividade — indicador que mede a capacidade de gerar mais riqueza com a mesma quantidade de pessoas, tempo e recursos. Nesse aspecto, porém, o Brasil enfrenta um desafio histórico.
Estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) mostram que a produtividade do trabalho no país praticamente não avançou nas últimas quatro décadas. Entre 1981 e 2024, a produtividade por hora trabalhada cresceu, em média, apenas 0,5% ao ano, ritmo insuficiente para sustentar um crescimento econômico robusto. Ainda assim, a renda per capita brasileira avançou cerca de 1% ao ano no mesmo período, resultado que só foi possível porque o país viveu o auge do bônus demográfico e ampliou a participação da população no mercado de trabalho — dois motores que agora perdem força com o envelhecimento populacional.
O diagnóstico fica ainda mais claro quando se observa a composição desses ganhos. Em 2023, por exemplo, houve uma aceleração expressiva da produtividade. No entanto, esse desempenho foi circunstancial e não se repetiu em 2024. Ainda de acordo com a FGV IBRE, o avanço veio quase todo da agropecuária, cuja produtividade cresceu 22,3% em 2023 e desacelerou para 1,6% no ano seguinte, enquanto o setor de serviços — responsável por cerca de 70% das horas trabalhadas no país — permaneceu praticamente estagnado. No longo prazo, essa concentração também se verifica: entre 1996 e 2024, a agropecuária respondeu por cerca de 61% de todo o crescimento da produtividade brasileira, chegando a 74% em períodos mais recentes, apesar de representar uma parcela relativamente pequena do PIB.
Diante desse cenário, sustentar o desenvolvimento exigirá uma estratégia baseada em ganhos permanentes de produtividade. Isso requer ampliar os investimentos em inovação e digitalização — especialmente no setor de serviços — e adotar políticas agressivas de requalificação profissional voltadas à chamada “Economia Prateada”, adaptando o mercado para reter e valorizar trabalhadores acima dos 50 e 60 anos. Também será necessário aperfeiçoar o ambiente institucional e o financiamento das políticas públicas, conciliando sustentabilidade fiscal com investimentos em educação, infraestrutura, ciência e tecnologia.
Qual o papel da primeira infância nessa equação?

Crédito da Imagem: Prefeitura de Campo Grande
Em um contexto em que o crescimento econômico do Brasil dependerá da qualidade de sua força de trabalho, investir na primeira infância também é uma estratégia econômica de longo prazo. Em um país com menos nascimentos e uma população idosa em expansão, garantir que cada criança desenvolva plenamente seu potencial será essencial para impulsionar a produtividade, a inovação e a capacidade de financiar políticas públicas nas próximas décadas.
Essa é a principal conclusão dos estudos do economista James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia (2000). Ao longo de décadas de pesquisa, Heckman demonstrou que os investimentos realizados na primeira infância — da gestação aos seis anos de idade — geram os maiores retornos econômicos e sociais de todo o ciclo de vida. A chamada “Curva de Heckman” mostra que os primeiros anos são decisivos para o desenvolvimento das habilidades cognitivas e socioemocionais que influenciarão a escolaridade, a empregabilidade, a renda e a produtividade na idade adulta.
Segundo seus estudos, programas que combinam nutrição adequada, cuidados em saúde, estímulos cognitivos, educação infantil e apoio às famílias podem gerar retornos anuais entre 7% e 10%, traduzidos em maior produtividade, melhores salários e redução de gastos públicos com saúde, assistência social, segurança e justiça. Como o desenvolvimento cerebral é mais intenso nos primeiros mil dias de vida, adiar esses investimentos significa desperdiçar parte importante dessa janela de oportunidade.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da transição demográfica brasileira. Com uma taxa de fecundidade de apenas 1,57 filho por mulher — muito abaixo do nível de reposição populacional, de 2,1 —, o Brasil já não poderá contar com o crescimento da população para impulsionar a economia. Cada criança passa a representar uma parcela ainda mais valiosa do futuro capital humano do país. Quando esse potencial é comprometido pela pobreza, pela insegurança alimentar, pela ausência de estímulos adequados ou por dificuldades de aprendizagem, o impacto não é apenas social: representa também uma perda permanente de produtividade, inovação e capacidade de geração de riqueza.
Sob essa perspectiva, investir na primeira infância é, também, investir na sustentabilidade do sistema de proteção social. Uma população economicamente ativa menor precisará gerar riqueza suficiente para financiar a Previdência, a Saúde e a Assistência Social em um país mais envelhecido. Isso dependerá da formação de trabalhadores mais qualificados, aptos a ocupar empregos de maior produtividade, inovar e ampliar a base tributária.
Como políticas sociais podem ajudar a preparar o país para essa transformação?

Crédito da Imagem: Jornal do Brás
O envelhecimento populacional exige uma mudança profunda na forma como o Estado brasileiro pensa suas políticas sociais. Para além de garantir renda por meio da Previdência e da assistência, será necessário construir uma rede capaz de responder às demandas de uma população que vive mais, convive por mais tempo com doenças crônicas e, em muitos casos, passa a depender de cuidados cotidianos para preservar sua autonomia e qualidade de vida. Preparar o país para essa transformação exige reconhecer o cuidado como uma infraestrutura essencial ao desenvolvimento.
Essa é a direção apontada por estudos do Ipea e pelas recomendações da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), consolidadas no Compromisso de Buenos Aires. Ambas as entidades defendem a estruturação de uma Economia do Cuidado, baseada no princípio de que cuidar e ser cuidado são um direito e uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, mercado e sociedade. O modelo tradicional, sustentado principalmente pelo trabalho não remunerado das mulheres, tornou-se insuficiente diante da redução do tamanho das famílias, da queda da fecundidade e da crescente participação feminina no mercado de trabalho, ampliando o déficit de cuidado.
Nesse contexto, fortalecer a proteção social demanda a expansão dos serviços de cuidados de longa duração, a integração entre SUS e SUAS, a valorização dos cuidadores e políticas voltadas ao envelhecimento ativo e à prevenção de doenças crônicas. A Política Nacional de Cuidados, sancionada no fim de 2024, representa um passo importante nessa direção ao reconhecer o cuidado como um componente estruturante da proteção social brasileira.
Além de responder aos desafios do envelhecimento, essas políticas ampliam a autonomia das pessoas idosas, reduzem a sobrecarga das famílias e favorecem a permanência e o ingresso de mais pessoas no mercado de trabalho. Em uma sociedade que envelhece rapidamente, investir em uma rede de cuidados fortalece a proteção social, a produtividade e a capacidade do país de crescer de forma mais inclusiva e sustentável.
O envelhecimento populacional não é uma ameaça, é uma conquista que exige reorganização. E você, como enxerga o papel das políticas sociais nessa transformação? Deixe seu comentário e participe do debate.
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