Em muitos países latino-americanos, a violência desponta em contextos marcados pela ausência de oportunidades, pela precariedade dos serviços públicos e pelas dificuldades de acesso a trabalho e renda. A região, que abriga cerca de 9% da população mundial, concentra um terço dos homicídios registrados no planeta, com uma taxa de letalidade que atinge 23,9 mortes por 100 mil habitantes — oito vezes a média global (3,0 por 100 mil).
De acordo com o Banco Mundial, a expansão do crime organizado compromete diretamente o desenvolvimento ao reduzir investimentos, destruir o capital humano e natural, desviar recursos públicos e enfraquecer a governança. Esse avanço é favorecido, sobretudo, por instituições fragilizadas e pela ausência do Estado em diversos territórios
Nesse cenário, a formação profissional surge como uma estratégia essencial de prevenção. A questão, porém, não se resume à ampliação da oferta de cursos de formação profissional, mas à criação de pontes reais entre o aprendizado, o mercado de trabalho e a geração de renda.
Quando a falta de oportunidades amplia a vulnerabilidade
Em 2024, cerca de 20,4% dos jovens no mundo não estudavam nem trabalhavam — o equivalente a aproximadamente 256 milhões de pessoas, das quais quase dois terços são mulheres. Nos países de baixa renda, apenas 1 em cada 4 jovens trabalhadores tem um emprego regular e seguro, enquanto essa proporção chega a 3 em cada 4 nas nações de alta renda.
Além disso, estima-se que cerca de 1,2 bilhão de jovens em países de baixa e média renda estarão aptos a ingressar no mercado de trabalho nos próximos 15 anos. Nesse sentido, criar empregos dignos e ampliar as condições de acesso a eles será determinante para o desenvolvimento econômico e social.
É nesse ponto que a inclusão produtiva se conecta diretamente à agenda de prevenção da violência. O próprio Banco Mundial aponta a educação, a capacitação e os programas de mentoria entre as políticas fundamentais para reduzir o recrutamento de jovens por organizações criminosas. Nessa lógica, a prevenção complementa — e não substitui — as ações de segurança, justiça e fortalecimento institucional.
Contudo, a existência de uma política não garante, por si só, bons resultados, visto que o impacto depende de seu planejamento e de sua execução. Para mapear o que torna esses programas eficazes, o Banco Mundial e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) analisaram 228 estudos sobre 220 programas de formação profissional em 62 países, somando mais de 5 mil estimativas de impacto.
A análise mostrou que, em média, esses programas melhoram os resultados dos participantes no mercado de trabalho — com efeitos ainda mais expressivos nos países de baixa e média renda.
Esse achado reforça que é preciso considerar quem será atendido, as barreiras específicas dessa população, as oportunidades do território e a jornada de acompanhamento até a efetiva inserção profissional. Onde o acesso ao emprego formal é mais restrito, intervenções adaptadas à realidade local demonstram maior capacidade de gerar resultados.
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Qualificação profissional precisa encontrar o mercado

Crédito da Imagem: Agência Pará
A oferta de cursos de capacitação costuma ser uma das respostas mais imediatas ao desemprego. No entanto, para que a formação se traduza em oportunidade real, é preciso alinhar o aprendizado às vocações e demandas do mercado de trabalho local. Afinal, acumular novos conhecimentos é importante, mas não garante, por si só, a inserção profissional.
Evidências reunidas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela OIT mostram que os programas de qualificação mais promissores reúnem seis características essenciais:
- Alinhamento direto às demandas reais do mercado;
- Incentivos vinculados a metas e resultados de empregabilidade;
- Formação prática, combinando teoria e vivência no ambiente de trabalho;
- Desenvolvimento de habilidades socioemocionais (soft skills);
- Apoio ativo na busca por vagas e processos seletivos;
- Assistência financeira para superar barreiras de participação, como transporte e alimentação.
No Brasil, as iniciativas mais robustas já combinam esses pilares para desenhar jornadas completas. A revisão internacional indica ainda que, em contextos de baixa e média renda, o incentivo ao empreendedorismo desponta como a intervenção de maior impacto médio, seguido pelos serviços de intermediação de mão de obra e pelo treinamento prático.
Além disso, programas locais e regionais superam os nacionais em efetividade, justamente pela maior capacidade de adaptar a política às vocações do território. Enquanto em áreas rurais, por exemplo, a inclusão produtiva pode focar na produção e no beneficiamento local, nos centros urbanos o caminho passa por apoiar pequenos negócios, conectar a formação às empresas do entorno ou aproximar os trabalhadores dos setores em expansão.
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Preparar para um mercado de trabalho em transformação
Essa adaptação ao território se torna ainda mais urgente diante das rápidas transformações tecnológicas. Automação, digitalização e inteligência artificial estão redefinindo ocupações em ritmo acelerado. No Brasil, estima-se que mais de 50% dos empregos formais possam ser automatizados nos próximos 10 a 20 anos, sendo as funções de menor qualificação e remuneração as mais expostas a esse deslocamento.
Do lado das empresas, a busca já se concentra em uma combinação de competências técnicas e socioemocionais. Pesquisas com empregadores mostram que tecnologia da informação e dados lideram a demanda técnica (40%), seguidas por atendimento (front office), vendas e suporte. Paralelamente, resiliência, adaptabilidade e capacidade de resolução de problemas surgem entre as habilidades socioemocionais mais cobradas (34%).
Esse cenário reforça a importância de uma inclusão produtiva capaz de acompanhar as mudanças do mercado de trabalho. À medida que novas tecnologias transformam ocupações e exigem diferentes competências, políticas de qualificação precisam ir além da preparação para uma função específica. Desenvolver a capacidade de adaptação dos trabalhadores passa a ser fundamental para ampliar suas possibilidades de inserção e permanência no mercado — especialmente entre aqueles mais expostos aos efeitos da automação.
Inclusão produtiva também é prevenção

Crédito da Imagem: Jornal O Imparcial
A inclusão produtiva contribui para a redução da violência, mas não de forma automática. Seu papel está em ampliar as oportunidades de trabalho e renda onde as barreiras de acesso são maiores, oferecendo alternativas concretas de autonomia e construção de futuro.
A revisão da OIT e do Banco Mundial mostra que quase três em cada quatro análises de custo-benefício registraram retornos econômicos superiores aos custos do programa. Entre os programas focados em treinamento de habilidades, essa proporção chegou a expressivos 95%.
Contudo, os resultados não são automaticamente permanentes. Como parte dos efeitos positivos tende a diminuir após o fim das intervenções, a sustentabilidade das políticas de inclusão produtiva depende de acompanhamento contínuo dos participantes e de avaliações de impacto no longo prazo.
Quando uma política pública consegue transformar a qualificação em acesso efetivo e duradouro ao trabalho, seus efeitos vão além da inserção profissional e podem ampliar a autonomia dos trabalhadores, fortalecer a governança no território e contribuir para a prevenção da violência.
Mas, e você, gestor público? Tem algum exemplo de programa de inclusão produtiva que tenha dado bons resultados? Caso sim, inscreva-o em nosso Mapa de Boas Práticas aqui!
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Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
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