Capacidade estatal, coordenação e desenvolvimento: reflexões dos Encontros Rede Juntos
Como enfrentar o avanço do crime organizado em um contexto cada vez mais complexo? Quais caminhos podem fortalecer a capacidade do Estado de entregar melhores serviços públicos? E como construir uma estratégia de desenvolvimento que combine crescimento econômico, responsabilidade fiscal e inclusão social?
Essas foram algumas das questões que mobilizaram os dois Encontros Rede Juntos realizados no último mês. No dia 25 de maio, especialistas, gestores públicos e lideranças de diferentes setores se reuniram para debater os desafios da segurança pública brasileira. Dois dias depois, no dia 27, o foco se voltou para política social e de renda, política econômica, equilíbrio fiscal e eficiência de Estado.
Embora tenham abordado temas distintos, os debates revelaram preocupações comuns sobre o futuro da gestão pública brasileira. A coordenação entre diferentes órgãos e níveis de governo, o uso estratégico de dados, o fortalecimento das capacidades estatais e o planejamento de longo prazo apareceram como elementos centrais para a atuação pública nos próximos anos.
Governar sistemas complexos exige coordenação
Um dos pontos mais recorrentes dos encontros foi a necessidade de fortalecer a articulação entre instituições setoriais, organizações privadas e esferas de governo.
Na segurança pública, as discussões partiram do reconhecimento de que o crime organizado opera hoje por meio de redes que conectam mercados ilícitos e lícitos, movimentam recursos financeiros de forma sofisticada e ultrapassam fronteiras territoriais.
Como destacou Leandro Piquet, líder do Comitê de Segurança da Comunitas e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), organizações criminosas têm ampliado sua presença em setores formais da economia, como combustíveis, mineração e serviços financeiros, o que exige estratégias que vão além do policiamento ostensivo e incluem polícia investigativa, inteligência financeira e integração entre diferentes órgãos do Estado.
Nesse cenário, interoperabilidade de dados e atuação coordenada tornam-se peças fundamentais para a ação pública. Como ressaltou Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz e painelista do Encontro, o fortalecimento das facções também está relacionado à sua capacidade de exercer controle territorial por meio do poder bélico, tornando o combate ao tráfico de armas uma dimensão importante dessa agenda.
O Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) apareceu diversas vezes como uma referência para essa discussão. Criado em 2018, o SUSP foi concebido para integrar as instituições de segurança pública das diferentes esferas de governo, reduzindo a fragmentação do sistema, ampliando o compartilhamento de informações e fortalecendo a coordenação federativa. A iniciativa busca enfrentar problemas históricos da área, como a atuação pouco articulada entre órgãos e a falta de padronização na produção de dados. Apesar de já estar previsto em lei, o sistema ainda não foi plenamente implementado e consolidado em todo o país. Por isso, seu fortalecimento apareceu ao longo dos debates como uma das principais alternativas para promover uma atuação mais integrada e estratégica do Estado no enfrentamento da criminalidade.
A governança da informação surgiu como outro tema de destaque. O diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, destacou que o principal desafio da segurança pública brasileira não está na falta de dados, mas na capacidade de integrar informações já existentes e transformá-las em inteligência para a tomada de decisão.
Já Luís Flávio Sapori, professor da PUC-Minas, chamou atenção para o papel do sistema prisional na dinâmica do crime organizado, lembrando que muitas facções brasileiras surgiram dentro das prisões. O especialista defendeu que a agenda de segurança incorpore de forma mais consistente temas como gestão penitenciária, avaliação de risco, reinserção social e redução da reincidência criminal.
Quer conhecer experiências que vêm fortalecendo a segurança pública em diferentes contextos do país? Confira nossa seleção de boas práticas.

Leandro Piquet e Luís Flávio Sapori discutiram sobre crime organizado e sistema prisional. Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello.
A discussão sobre cooperação institucional também esteve presente em outras áreas. No painel dedicado à política social e de renda, Laura Muller Machado, líder do Comitê de Política Social e de Renda da Comunitas, professora e coordenadora acadêmica do Insper; Mariel Deak, pesquisadora e consultora em Políticas Públicas da FGV; e Vivianne Naigeborin, superintendente da Fundação Arymax ressaltaram que o Brasil construiu uma ampla rede de programas e serviços, mas ainda enfrenta desafios para fazer com que essas políticas cheguem de forma integrada à população.
Entre os obstáculos apontados estiveram a fragmentação de sistemas e bases de informação, as dificuldades de articulação entre diferentes áreas de governo e a distância entre o desenho das políticas em nível federal e sua implementação nos territórios.
Nesse contexto, foi ressaltado que o principal desafio não está necessariamente na criação de novas políticas, mas na capacidade de implementar e conectar aquelas que já existem. Como exemplo, apresentou o caso de uma família com um jovem portador de deficiência que depende simultaneamente de serviços de saúde, assistência social e transporte para acessar a escola. Neste caso, a visão exclusiva da secretaria de educação não atende todas as necessidades enfrentadas por esta família.
Embora cada uma dessas políticas exista e funcione adequadamente de forma isolada, o cidadão depende de que todas operem coordenadamente. A interrupção de um único serviço pode comprometer o acesso aos demais, revelando como a implementação das políticas públicas é, na prática, uma cadeia de ações interdependentes.
Por isso, a integração entre áreas de governo e a construção de diagnósticos territoriais mais precisos foram apontadas como caminhos para ampliar a efetividade das ações públicas. E o exemplo apresentado ilustra justamente esse desafio: embora as políticas sejam formuladas e geridas por órgãos distintos, a experiência do indivíduo é única e atravessa diferentes áreas do poder público.
Ao longo dos dois encontros, essa constatação levou a uma mesma pergunta: como fazer com que estruturas criadas para atuar de forma isolada consigam responder a problemas que são, por natureza, interdependentes?
Capacidade estatal no centro do debate público
Outro tema que atravessou as discussões foi a necessidade de fortalecer a capacidade do Estado de formular, implementar e sustentar políticas públicas ao longo do tempo.
Nos debates sobre equilíbrio fiscal, os painelistas ressaltaram a importância de construir trajetórias sustentáveis para as contas públicas, capazes de gerar previsibilidade e confiança. A qualidade da comunicação com a sociedade também recebeu destaque.
Temas fiscais costumam ser tratados de forma técnica e distante do cotidiano das pessoas, o que dificulta a construção de consensos em torno das mudanças necessárias. Soma-se a isso o fato de que mudanças nessa área frequentemente despertam resistência social, especialmente quando são associadas a cortes, restrições ou perda de benefícios, tornando ainda mais importante a capacidade de explicar seus objetivos e impactos.
A agenda da eficiência de Estado aprofundou essa reflexão. Questões como modernização do funcionalismo público, transformação digital, avaliação de desempenho, compras governamentais e gestão orientada para resultados estiveram entre os temas debatidos.
Nesse contexto, Wagner Lenhart, painelista e ex-secretário de Gestão e Desempenho de Pessoal do Ministério da Economia, argumentou que boa parte da administração pública brasileira ainda opera a partir de estruturas desenhadas para uma realidade muito diferente da atual. Entre os exemplos discutidos estiveram a dificuldade de atualizar carreiras e funções diante de novas demandas, a rigidez de modelos de contratação, os desafios para incorporar critérios efetivos de avaliação de desempenho e a permanência de mecanismos que privilegiam o cumprimento de procedimentos, mas nem sempre a geração de resultados.
Também foram mencionadas barreiras à compra de inovação pelo poder público e incentivos orçamentários que estimulam a execução integral dos recursos disponíveis, mesmo quando sua realocação poderia gerar mais valor para a sociedade.
Outros participantes reforçaram essa perspectiva. Fernando Schüler, líder do Comitê de Eficiência de Estado da Comunitas, professor e pesquisador do Insper, chamou atenção para a ausência de padrões mais claros de eficiência na administração pública, enquanto Vinicius Botelho, Gerente de Assuntos Econômicos da Presidência da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (FIN) destacou a importância de utilizar dados e evidências para aprimorar o desenho das políticas e conectar ações governamentais às necessidades concretas da população.
Temas como governo digital, uso inteligente de bases de dados e valorização de servidores também apareceram como componentes importantes para ampliar a capacidade de entrega do Estado.
Quer se aprofundar nos desafios da modernização do Estado? Conheça algumas reflexões e aprendizados internacionais sobre transformação digital e capacidade governamental.

Vinicius Botelho, Fernando Schüler e Wagner Lenhart debateram sobre os desafios relacionados à modernização da administração pública e o incremento da eficiência de estado. Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello.
Desenvolvimento e inclusão caminham juntos
Desenvolvimento econômico e inclusão social costumam ser tratados como agendas distintas no debate público. No entanto, ambas remetem a uma mesma questão: como construir um modelo de desenvolvimento capaz de ampliar oportunidades para a população e, ao mesmo tempo, aumentar a competitividade do país?
As discussões também abordaram tópicos como produtividade, infraestrutura, inovação e inserção do Brasil nas transformações da economia global. Nelson Marconi, professor, coordenador e pesquisador da FGV/EAESP; e André Luiz Saconeti, Fecomercio, destacaram os desafios relacionados à baixa produtividade da economia brasileira e à necessidade de uma estratégia capaz de aproveitar as oportunidades abertas pelas transformações do cenário internacional.
Também ganhou espaço o debate sobre o papel do Estado na criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento. Temas como estabilidade fiscal, segurança jurídica, qualidade regulatória e infraestrutura foram apontados como elementos centrais para aumentar a produtividade do país e estimular novos investimentos. Ao longo das discussões, surgiram exemplos como a digitalização de cartórios, a redução da morosidade judicial e a ampliação da infraestrutura logística, medidas que ajudam a tornar mais simples, rápido e previsível o processo de abrir, expandir e operar negócios no país.
Ao mesmo tempo, os painelistas e participantes do Encontro ressaltaram que os ganhos econômicos precisam se traduzir em oportunidades concretas para as pessoas. A inclusão produtiva ocupou posição de destaque na discussão, com reflexões sobre qualificação profissional, desenvolvimento de competências digitais, educação técnica, economia do cuidado, agricultura familiar, empregos verdes e economia criativa.
Outro aspecto recorrente foi a necessidade de aproximar políticas públicas das realidades locais. Diferentes territórios apresentam desafios, vocações econômicas e oportunidades distintas. Por isso, estratégias nacionais precisam dialogar com contextos regionais e considerar as especificidades de cada população.

Laura Muller, Mariel Deak, e Vivianne Naigeborin discutiram sobre o acesso a políticas sociais e a importância da inclusão produtiva. Crédito da Imagem: Rodrigo Meneghello.
Olhar para o futuro exige fortalecer capacidades no presente
Os Encontros Rede Juntos reuniram discussões sobre temas diversos, mas conectados por uma mesma preocupação: como preparar o Estado brasileiro para responder aos desafios contemporâneos.
Segurança pública, equilíbrio fiscal, eficiência de Estado, desenvolvimento econômico e políticas sociais costumam ocupar espaços distintos no debate público. Ao longo dos encontros, porém, essas agendas apareceram frequentemente conectadas por questões de governança, coordenação e capacidade de execução.
Em um contexto marcado por transformações econômicas, tecnológicas e sociais cada vez mais aceleradas, a construção de soluções duradouras depende da capacidade de governos e instituições de aprender, cooperar e transformar conhecimento em resultados concretos para a população.
E você, como tem enfrentado esses desafios na sua gestão? Queremos ouvir sua experiência nos comentários.
Postagens relacionadas
Da fiscalização ao aprendizado: como a avaliação fortalece a gestão pública baseada em evidências
O Dilema do Artigo 374 da LC 214/2025: O Reequilíbrio Contratual será por Contrato ou pelo CNPJ?
Muito além da previdência
Lideranças com espírito público
Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
Deixe seu comentário!