No Dia do Trabalho, é comum que o debate gire em torno de emprego, renda e produtividade. Mas, por trás de tudo isso, existe uma condição mais silenciosa — e muitas vezes esquecida: o bem-estar.
Afinal, o que sustenta a capacidade de trabalhar não é apenas ‘ter um emprego’, mas as condições físicas e mentais que permitem que a vida aconteça rotineiramente. É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas uma pauta da saúde e passa a ocupar um lugar central na discussão sobre trabalho e desenvolvimento.
Porque o bem-estar, na prática, não é só ‘ausência de doença’. É o que sustenta a rotina, o trabalho, as relações e até as pequenas decisões do dia a dia.
Quando se olha por esse ângulo, o tema deixa de ser apenas uma pauta setorial e passa a ser uma questão mais ampla — que ajuda a explicar por que alguns territórios avançam, enquanto outros enfrentam mais dificuldades. Afinal, quando a sensação de bem-estar se fragiliza, o impacto não fica só no indivíduo, mas também no desenvolvimento socioeconômico e no funcionamento coletivo.
Portanto, este texto busca evidenciar como o bem-estar impacta a vida das pessoas para além da esfera individual, produzindo efeitos também sobre o trabalho e o desenvolvimento dos territórios.
Você se interessa por temas voltados a bem-estar e desenvolvimento econômico? Leia o texto “O bem-estar como novo indicador para o desenvolvimento das nações”!
Bem-estar como base da capacidade de produzir
Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que problemas de saúde estão entre as principais causas de queda de produtividade no mundo. Transtornos como ansiedade e depressão, por exemplo, geram perdas globais superiores a US$ 1 trilhão por ano. E não é só porque as pessoas faltam ao trabalho. Muitas vezes, elas continuam trabalhando, mas com dificuldade de concentração, menos energia e menor capacidade de entrega. É o que se chama de presenteísmo.
No Brasil, esse cenário também é bastante presente. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2019, mostram que cerca de 50% da força de trabalho convive com pelo menos uma doença crônica, como hipertensão, diabetes ou depressão. Além disso, quase 25% dos trabalhadores enfrentam mais de uma condição ao mesmo tempo. Em casos mais graves, o absenteísmo pode ser até quase cinco vezes maior do que entre pessoas sem diagnóstico.
Mas o ponto talvez mais importante é que nem sempre esse impacto aparece de forma visível. Mesmo sem afastamento, muitas pessoas trabalham lidando com dor, cansaço ou desgaste emocional. Isso afeta decisões, concentração e ritmo – e, aos poucos, vai reduzindo a capacidade de sustentar uma rotina saudável. Em muitos casos, a produtividade já está comprometida antes mesmo de qualquer afastamento formal.
1 Produtividade, neste texto, não é entendida como extração máxima de esforço, mas como capacidade sustentável de realizar tarefas com qualidade, constância e bem-estar – conceito que a literatura especializada chama de “produtividade do trabalhador saudável”.
2 Absenteísmo é a falta do trabalhador no ambiente de trabalho por algum motivo justificável (como doença, licença médica, acidente) ou não.
A relação entre saúde mental e produtividade

Crédito da Imagem: Pexels
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15% dos adultos em idade produtiva convivem com algum transtorno mental — um cenário que impacta diretamente a concentração, o ritmo de trabalho e a capacidade de tomar decisões no dia a dia.
Além disso, de acordo com um policy brief, desenvolvido entre a OMS e a OIT, o próprio local de trabalho exerce um papel fundamental nisso. Dependendo das condições, o clima organizacional pode proteger ou prejudicar a saúde mental dos trabalhadores. Jornadas excessivas, falta de autonomia, assédio e metas inalcançáveis aumentam o risco de adoecimento — especialmente quando não há apoio por parte das lideranças.
No Brasil, esse cenário já aparece com força. Em 2025, foram registrados mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais – um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Ansiedade e depressão lideram os casos e já superam causas tradicionalmente comuns de licença, como fraturas. No entanto, esse número ainda não mostra o tamanho real do problema, já que ficam de fora os afastamentos mais curtos, o presenteísmo e grande parte da força de trabalho informal.
De acordo com Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esse cenário não é exclusivo do país e mostra que trabalhadores com problemas de saúde mental faltam, em média, 12 dias a mais por ano do que aqueles sem esses quadros — isso em todos os países que fazem parte do bloco.
Quando o problema passa a ser coletivo
Até aqui, o texto focou em abordar o impacto do bem-estar na vida das pessoas e no trabalho. Mas esse efeito não para no indivíduo. Quando muita gente adoece — ou vive em condições que dificultam o cuidado com a própria qualidade de vida — o impacto começa a aparecer no funcionamento do território como um todo.
É por isso que o Banco Mundial trata a saúde como base do capital humano. É ela que sustenta a capacidade de uma população estudar, trabalhar e gerar renda ao longo da vida. Em outras palavras, não é só uma questão social — é também um fator que ajuda a explicar o ritmo de desenvolvimento de um país.
No Brasil, esse impacto já foi medido. O Índice de Capital Humano Plus (HCI+), lançado pelo Banco Mundial neste ano, mostra que o país desperdiça cerca de 40% do potencial produtivo de sua próxima geração. Em comparação, uma criança no Japão (líder global do índice) atinge 87,4% de seu potencial. Na prática, enquanto o Japão aproveita quase 9 a cada 10 crianças em seu pleno potencial, o Brasil deixa de aproveitar mais de um terço da capacidade produtiva de cada nova geração.
Entretanto, o dado mais revelador está nas desigualdades. Crianças brancas chegam a 63% desse potencial, enquanto afrodescendentes ficam em 56% e indígenas, em 52%. A renda também pesa: filhos de famílias mais ricas alcançam quase 70% do potencial, contra pouco mais de 58% entre os mais pobres. E, quando esse capital humano chega ao mercado de trabalho, o aproveitamento real cai para cerca de 38%.
Isso porque, segundo a OMS, o bem-estar não depende só de atendimento médico — ele é fortemente influenciado pelas condições de vida. Moradia, educação, trabalho e acesso a recursos moldam, ao longo do tempo, quem adoece mais e quem tem mais chances de viver com qualidade. E essa diferença segue um padrão claro: quanto pior a condição socioeconômica, piores os indicadores de saúde e bem-estar.
No fim, o que aparece é um efeito em cadeia. Territórios com piores condições de saúde formam menos capital humano, aproveitam menos o potencial da sua população e enfrentam mais dificuldade para gerar renda e crescer. Já o investimento em bem-estar cria o movimento oposto: melhora a qualidade de vida, amplia a participação no trabalho e fortalece o desenvolvimento local.
O papel da gestão pública

Crédito da Imagem: Canva
Como o bem-estar influencia diretamente a capacidade produtiva da população e o desenvolvimento dos territórios, não é por acaso que alguns municípios avançam mais do que outros. Na maior parte das vezes, essa diferença está relacionada à forma como a gestão pública estrutura e organiza os serviços — especialmente na área da saúde.
O Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, mostra que a saúde ainda é um dos pontos mais frágeis do desenvolvimento local. Em 2025, apenas 1,9% dos municípios brasileiros alcançaram alto nível de desenvolvimento nessa área. Enquanto isso, 39,1% permanecem em nível baixo e 5,8% ainda estão em situação crítica.
Quando se olha para o mapa do Brasil, as diferenças ficam ainda mais evidentes. Em estados como São Paulo, 99,7% da população vive em municípios com desenvolvimento socioeconômico geral classificado como alto ou moderado pelo IFDM — um índice que combina emprego, educação e saúde. Isso significa que, nesses territórios, há melhor infraestrutura econômica e educacional, o que cria condições mais favoráveis para a organização de serviços de saúde.
Já na região Norte, por exemplo, o cenário é outro. No Acre, 68,2% dos municípios estão em situação crítica; em Roraima, 66,7%; e no Amazonas, 59,7%. Na prática, essa classificação indica dificuldades severas em todas as áreas — menos empregos, pior educação e acesso muito mais limitado à atenção básica.
O bem-estar como estratégia de produtividade

Crédito da Imagem: Pexels
Nos últimos anos, alguns países têm começado a reorganizar a relação entre trabalho, renda e qualidade de vida — não como um benefício adicional, mas como parte da própria estratégia de crescimento econômico.
VOCÊ SABIA?
A Espanha é um exemplo interessante desse movimento. Após décadas de estagnação, a produtividade da economia espanhola passou a crescer de forma consistente a partir de 2020, atingindo um ritmo médio anual de 1,4% — o maior dos últimos 30 anos e acima da média europeia no mesmo período.
Esse avanço não está associado a um único fator, mas a um conjunto de mudanças no mercado de trabalho e na estrutura produtiva. Entre elas, destacam-se a melhora na qualidade do emprego, com redução de vínculos temporários e aumento da participação de setores de maior valor agregado, além de investimentos em fatores menos visíveis, como qualificação profissional, inovação e organização do trabalho.
Ao mesmo tempo, o país avançou na valorização da renda dos trabalhadores. O salário mínimo espanhol acumulou um aumento expressivo nos últimos anos, com previsão de € 1.221 (aproximadamente R$ 7.127) mensais até 2026 — uma alta de cerca de 66% em relação a 2018. A medida, que impacta milhões de trabalhadores, tem como objetivo ampliar o poder de compra e melhorar as condições de vida, especialmente entre os grupos mais vulneráveis.
Essas transformações não ocorrem sem debate. Há questionamentos sobre os efeitos dessas políticas sobre os custos das empresas e sobre a sustentabilidade no longo prazo. Ainda assim, os dados mais recentes indicam que a economia espanhola tem conseguido combinar crescimento, geração de empregos e melhora gradual na eficiência produtiva.
O que essa experiência sugere é uma mudança de perspectiva: a ideia de que produtividade não depende apenas do volume de trabalho, mas da qualidade das condições em que ele é realizado.
Em outras palavras, políticas que ampliam o bem-estar, seja por meio da melhoria da renda, da qualificação ou das condições de trabalho, não necessariamente entram em conflito com o desempenho econômico. Em determinados contextos, podem, inclusive, atuar como um de seus principais motores.
Quando o trabalho depende de mais do que trabalho
No fim, o que esse conjunto de evidências mostra é que trabalho e bem-estar não são dimensões separadas — são interdependentes.
Sociedades que conseguem garantir melhores condições de saúde e qualidade de vida não apenas reduzem o adoecimento, mas ampliam sua capacidade de produzir, inovar e crescer de forma sustentável.
Em um contexto em que o mundo do trabalho está em transformação, a discussão deixa de ser apenas sobre gerar empregos e passa a incluir uma pergunta mais fundamental: em que condições as pessoas estão vivendo — e trabalhando?
Afinal, o desenvolvimento não se sustenta apenas no quanto se produz, mas nas condições que tornam essa produção possível.
Quer entender como iniciativas como essa podem ser adaptadas a outros municípios? Acesse a nossa seção de Boas Práticas e conheça experiências que estão transformando a gestão pública no Brasil.
Postagens relacionadas
O que faz uma política atravessar governos?
Nova agenda regulatória da ANS será decisiva para futuro da saúde suplementar no Brasil
Serviços especializados para pessoas com TEA: lições e inovações nas parcerias paulistas
Lideranças com espírito público
Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
Deixe seu comentário!