Os dias quentes e ensolarados dos primeiros meses do ano já são uma realidade conhecida dos brasileiros em todo o país. O verão de 2025, por exemplo, foi considerado o segundo mais quente da história, segundo dados do Climatempo.
No ano passado, a temperatura média do período do verão foi 0,73°C acima da média normal climatológica¹. Os efeitos das mudanças climáticas somados a fenômenos naturais, como o El Niño e a La Niña, têm contribuído para essas altas temperaturas.
O calor desses meses traz uma maior demanda por conforto térmico, o que leva ao aumento do uso de refrigeradores, ventiladores e ar-condicionados — e, consequentemente, do consumo de energia.
Quer saber mais sobre o aumento do consumo energético e os impactos que isso tem na gestão pública? Continue lendo o texto para saber mais!
Verões mais quentes
Pode parecer redundante falar do calor do verão, mas os dados mais recentes confirmam: os meses historicamente mais quentes estão se tornando ainda mais sufocantes.
Além do Brasil, países do hemisfério norte, como Reino Unido, Japão e Coreia do Sul, também sofreram com médias de temperatura acima do normal. Dados da Agência Meteorológica Japonesa mostraram que, no
ano passado, o calor enfrentado pelo país foi o mais forte desde o início dos registros, em 1898, com 149 localidades marcando temperaturas 3,4°C superiores à média do período.
Na Coreia do Sul, a temperatura média foi de 25,7°C — o maior valor já registrado desde o início das medições, em 1973. Esses dados demonstram que as ondas de calor e as altas temperaturas já afetam o mundo todo.
Temperaturas mais elevadas provocam picos simultâneos de demanda por energia em residências, hospitais, escolas, centros comerciais, edifícios públicos e serviços essenciais, pressionando redes elétricas, elevando custos operacionais e aumentando o risco de interrupções no fornecimento.
Esse cenário compromete a continuidade dos serviços públicos e a proteção de populações vulneráveis. Por isso, governos precisam ir além de respostas emergenciais e adotar medidas estruturais, como adaptação urbana ao calor extremo, programas de proteção tarifária² para a população e estratégias de gestão da demanda nos horários de maior consumo.
A dependência energética é um problema?
Um relatório da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) apontou que, no primeiro trimestre de 2024 (correspondente aos meses de verão), o consumo de energia no Brasil, em comparação com o mesmo período de 2023, saltou de 68.993 MW³ médios para 72.4116 MW médios.
Os extremos térmicos acabam também comprometendo a estabilidade do sistema elétrico e o custo para o setor público e a população. O maior uso de aparelhos eletrônicos acaba sobrecarregando transformadores e linhas de transmissão, o que aumenta o risco de apagões e cortes no funcionamento de energia.
Desde o ano passado o estado de São Paulo está enfrentando uma séria seca nos reservatórios de água que são responsáveis por boa parte da geração de energia do estado? Além da crise hídrica em si, essa situação pode aumentar o risco de apagões e elevar o preço da energia.
Para além dos apagões….
As altas temperaturas afetam outras áreas e trazem complicações. Na saúde, por exemplo, os casos de insolação aumentaram em diversas cidades do Brasil.
No estado de São Paulo, o número de atendimentos ambulatoriais por efeitos do calor aumentou em 27,2%, entre janeiro e outubro de 2025, em
comparação com o mesmo período de 2024, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES). Serviço essencial que depende diretamente de energia elétrica para manter equipamentos, climatização e funcionamento básico.

Ondas de calor aumentam simultaneamente a demanda por atendimento (por desidratação, agravamento de doenças crônicas e eventos cardiovasculares e respiratórios) e por energia (para resfriamento e manutenção de equipamentos). Imagem: Freepik
Com isso, forma-se um ciclo vicioso: mais calor aumenta a procura por atendimento e eleva o consumo de energia. Esse pico de demanda pressiona a rede e, quando há falhas no fornecimento, a capacidade de resposta do sistema de saúde fica ainda mais comprometida.
O verão e as desigualdades sociais
Embora sejam muito usados no verão, ventiladores e climatizadores não são acessíveis para toda a população. Grupos que são tradicionalmente mais vulneráveis acabam sofrendo mais com o calor extremo e as altas temperaturas.
De acordo com um estudo do Instituto Pólis, as desigualdades sociais podem ser percebidas no dia a dia das populações e evidenciadas a partir de dados. Uma análise sobre a cidade do Recife (PE), mostrou que os bairros com maioria de população branca apresentam melhores indicadores de serviços e de infraestrutura essencial para lidar com eventos climáticos extremos.
Estas particularidades devem ser levadas em conta no momento da construção de políticas públicas eficientes no setor.
Quer saber mais sobre a realidade e os dados de racismo climático no Brasil? Leia sobre isso lendo o dossiê do Instituto Pólis clicando aqui!
E as políticas públicas?
O verão virou um teste anual de resiliência: o calor extremo eleva o consumo de energia e expõe fragilidades de infraestrutura e governança. Sem políticas de eficiência, planejamento urbano climático e gestão de risco, a conta chega em crise de serviços públicos, aumento de gastos e desigualdade social.
Para combater essa realidade, uma abordagem possível é articular políticas públicas transversais que integrem diferentes áreas, como saúde, energia, meio ambiente, transporte e educação.
Uma das alternativas existentes para criar ambientes públicos onde a população possa se refrescar são as piscinas públicas. Um exemplo de sucesso são as piscinas dos CEUs em São Paulo que trazem para a população um alívio mais imediato do calorão.
Outra opção é investir em políticas públicas estruturantes, incentivando, por exemplo, a arborização urbana.
Ao mesmo tempo, políticas fiscais garantem segurança para os municípios, estados e União, assegurando que o custo sobre o aumento de energia não onere a população de forma exorbitante.
Ao articular políticas de curto, médio e longo prazo, é possível desenvolver ferramentas, mecanismos e ações que ajudem a população a lidar de forma mais saudável, sustentável e eficiente com a realidade climática atual.
E você, gestor? Quais desafios a sua região enfrenta por conta das altas temperaturas? Não deixe de contar para a gente nos comentários!
¹ Medida estabelecida pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que ajuda a entender se as temperaturas estão abaixo ou acima da média padrão.
² No Brasil, as tarifas da conta de luz variam de acordo com nível dos reservatórios e acionamento das usinas termelétricas. Se a tarifa está em bandeira verde não há acréscimo. Se passam para as bandeiras amarela e vermelha aumenta-se o valor por quilowatt-hora consumido, funcionando como um sinal de alerta para economizar.
³ MW significa MegaWatts. Trata-se da medida utilizada para a medição de energia.
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