Cidade para mulheres

Foto por Robert Bye on Unsplash

Como reduzir a desigualdade de gênero nos centros urbanos brasileiros?
“Você vai voltar sozinha para casa? Pede para o fulano te acompanhar”. “Me avise quando você chegar em casa.” “Ignorar comentários, fingir que não ouviu ou sorrir gentilmente e abaixar os olhos.” “Não, é sua imaginação, ele só está tão grudado em você porque o metrô está cheio.” “Não, é sua imaginação, eles não estão te seguindo, mas por via das dúvidas, aperte o passo.” “Se eu sair dessa reunião pontualmente, consigo passar na creche pegar as crianças, passar no supermercado, cozinhar, dar banho e talvez ainda sobre um tempinho para mim.”

 

Tantas frases, pensamentos, situações, comportamentos, emoções familiares a todas as mulheres que vivem em centros urbanos. Porém, se há elementos comuns na vivência de ser mulher nas cidades, também há grande diversidade e disparidade em como as mulheres vivenciam o urbano: a cidade da mulher branca de classe alta é radicalmente diferente da cidade da mulher negra moradora de periferia, e ainda mais de uma mulher com deficiência. Há tantas mulheres quanto formas de vivenciar a cidade.

 

Onde estamos: Cidades e gênero
O que significa ser mulher nas cidades brasileiras hoje em dia? Como as desigualdades de gênero se refletem no urbano? Como as cidades, em seu formato atual, acentuam as desigualdades de gênero? O que vem primeiro: a desigualdade de gênero causa cidades que não consideram a realidade das mulheres, ou a cidade não pensada para mulheres amplifica as desigualdades de gênero?

 

As desigualdades de gênero são visíveis de várias formas nos centros urbanos do Brasil e do mundo. O estudo “As desigualdades de gênero nas cidades” do BID, CAF, ONU-Habitat de 2020, separa os desafios relacionados ao gênero no planejamento urbano a partir de três grandes perspectivas: acessibilidade dos serviços, acessibilidade política e acessibilidade econômica. Na primeira, as mulheres em centros urbanos enfrentam maiores dificuldades para ter posse de moradia, são a maioria dos usuários de transporte público (60% em cidades como Buenos Aires, por exemplo), e são as principais vítimas de violência e assédio (pesquisa do instituto Patrícia Galvão aponta que 96% das mulheres brasileiras já sofreram assédio na rua). Na segunda, o estudo mostra que as mulheres em centros urbanos ainda enfrentam disparidades no acesso à educação, na inclusão digital e na participação de processos de tomada de decisão pública. Na terceira perspectiva, dados apontados no estudo ilustram a persistência de desigualdades salariais, a permanência no setor informal, a dificuldade em acessar créditos financeiros para empreender por parte das mulheres.

 

Se ainda é cedo para ter dados quantificáveis sobre o impacto da pandemia nas desigualdades de gênero nos centros urbanos, não há dúvidas de que estas foram acentuadas. Além de um aumento notável da violência doméstica, as mulheres assumiram mais ainda o cuidado da casa, das crianças e dos idosos nos domicílios, e também houve uma redução quanto à procura por trabalho pelas mulheres (cf. artigo “O retrato do trabalho doméstico em tempos de covid-19” e matéria do Valor).

 

Onde queremos chegar: Cidades inclusivas e prósperas
De acordo com o artigo “Closing the gender gap” de Era Dabla-Norris and Kalpana Kochhar, na Finance and Development, 2019, a desigualdade de gênero não deve ser compreendida apenas como uma questão de justiça social, mas também uma questão econômica. No artigo, as autoras apontam estudos recentes do Fundo Monetário Internacional que revisaram o cálculo de perdas econômicas decorrentes do desempoderamento das mulheres no mercado de trabalho. Enquanto estudos prévios estimaram as perdas entre 10 e 30% de PIBs nacionais, estudos mais recentes mostram que o impacto na economia da disparidade de gênero no mercado laboral é ainda maior. Os estudos mostram que mais mulheres no mercado de trabalho, e maior diversidade nas organizações contribui para aumentar a produtividade delas, gerando ainda mais crescimento econômico. Desta forma, planejar e construir cidades para mulheres e políticas públicas urbanas com recorte de gênero, pode não somente contribuir para reduzir as disparidades de gênero na sociedade, como também gerar importantes benefícios sociais e econômicos para a cidade. Se pensarmos e construirmos cidades mais inclusivas, também teremos cidades mais prósperas.

 

Como chegar lá: Ações para construir cidades mais inclusivas e equitativas
Como construir cidades para mulheres: que ações públicas podem ser tomadas para reduzir as disparidades de gênero nas cidades? Vislumbramos principalmente dois caminhos: aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no setor público e aplicar um recorte de gênero a todas as políticas públicas.

 

1. Aumentar o número de mulheres em cargos de liderança no setor público
Segundo relatório City Mayor de 2017, das 300 maiores cidades do mundo, apenas 25 eram lideradas por mulheres. No Brasil, das 154 cidades acima de 200 mil habitantes, apenas 13 eram lideradas por prefeitas (fonte própria). Olhando para o macro, no setor público brasileiro, existe uma representatividade considerável de mulheres, já que elas contabilizam 43% do total de servidores públicos. No entanto, olhando para outros dados observamos que as mulheres estão presentes principalmente em alguns setores (educação, por exemplo) e a presença ainda é muito limitada nos cargos de liderança, chegando a apenas 21.8% dos cargos ocupados (cf. artigo “How women can rise to the top in a man’s world. Daniella Diniz, 2022).

 

Conforme abordado no artigo “Closing the gender gap” de Era Dabla-Norris and Kalpana Kochhar, na Finance and Development, 2019, um número maior de mulheres em posições de liderança pode trazer benefícios em termos de aumento da produtividade das organizações. O artigo cita estudos que mostraram diferenças de habilidades e comportamentos em posturas de liderança onde mulheres tendem a ser mais resistentes a riscos, terem maior receio de fracasso e serem menos competitivas. O artigo defende que, em alguns setores específicos, essa cautela maior, que é característica das lideranças femininas, pode ser benéfica, trazendo maior estabilidade e resiliência nas organizações. No entanto, o debate sobre as diferenças de estilo de liderança entre homens e mulheres gera controvérsias, já que afirmar que há diferenças de características comportamentais pode contribuir para aumentar ainda mais os vieses de gênero. Aplicado ao setor público, exemplos recentes como o caso dos resultados mais positivos na gestão da pandemia da covid-19 em países liderados por mulheres, contribuem para fortalecer a narrativa segundo a qual mais mulheres em cargos de liderança no setor público contribui para políticas mais efetivas.

 

Para aumentar o número de mulheres líderes no setor público, a seguir algumas estratégias que podem ser tomadas sob diferentes perspectivas:

 

Estratégia 1: Desenvolver programas que visam fortalecer as competências de liderança das mulheres, ampliar seu autoconhecimento e mudar seu comportamento para que possam superar barreiras e desenvolver estratégias. Podem ser campanhas de sensibilização, mentorias, treinamentos, entre outros.

 

Estratégia 2: Desenvolver programas que visam mudar o tratamento com viés de gênero. Conforme citado no artigo “A study used sensors to who that men and women are treated differently at work” (S. Turban, L. Freeman, B. Waber, 2017, em muitos contextos (neste caso, numa empresa dos Estados Unidos), o comportamento de homens e mulheres é idêntico e o que justifica a disparidade quanto a assumir posições de liderança é o tratamento diferenciado. Dessa forma, o estudo sugere dar mais peso a programas que visam reduzir os vieses de gênero do que àqueles que buscam alterar o comportamento das mulheres. Podem, por exemplo, ser realizados treinamentos ou campanhas de sensibilização destinados aos homens.

 

Estratégia 3: Promover espaços de troca e maior sociabilidade com lideranças, oferecer oportunidades de visibilidade e valorização de mulheres, aproximando-as às centralidades de poder em condições equitativas. Também podem ser criadas condições para que mulheres sejam avaliadas sobre critérios objetivos para evitar os vieses de gênero. Se tomarmos o exemplo de processos seletivos para cargos de liderança, é interessante garantir um pool de candidatos com perfis diversos e ter atividades coletivas durante o processo seletivo para neutralizar o tratamento.

 

Estratégia 4: Desenvolver políticas internas que visam apoiar as mulheres no equilíbrio da vida profissional e domiciliar, para que não tenham que escolher entre trabalho e família. Disponibilizar creches às equipes, aumentar tempo de licença paternidade, são exemplos de ações que podem ser desenvolvidas.

 

2. Aplicar o recorte de gênero às políticas públicas de todos os setores
Como bem lembrado pelo artigo “How women can rise to the top in a man’s world. Daniella Diniz, 2022, mais mulheres em cargos de liderança pode sim ter um efeito no sentido de melhorar a qualidade das políticas públicas, mas não garante automaticamente maior advocacy quanto às questões de redução das desigualdades de gênero. Portanto, para construir cidades mais inclusivas e equitativas, é necessário aplicar um recorte de gênero a todas as políticas públicas municipais.

 

Para isso, é fundamental incluir mais mulheres nos processos participativos de construção da cidade, para que seja pensada desde a perspectiva das diversas realidades das mulheres das cidades conforme ilustra a seguinte citação do relatório “As desigualdades de gênero nas cidades” do BID, CAF, ONU-Habitat de 2020:

 

“Sem a representação das mulheres e de pessoas de diversas origens no planejamento e gestão das cidades devido a normas culturais ou à suposição de que o planejamento das cidades é uma “disciplina neutra”, a paisagem urbana é projetada de um modo que reforça e agrava as desigualdades de gênero existentes e compromete o acesso das mulheres aos serviços urbanos. A dominância masculina no planejamento urbano costuma levar a formas urbanas que separam as áreas residenciais e comerciais e priorizam os carros em detrimento do transporte público.”

 

Do ponto de vista das políticas públicas municipais, a questão da desigualdade de gênero é um problema complexo multifacetado, não existe uma única solução e precisa ser abordada de maneira integrada sob diversos ângulos. Alguns exemplos de políticas públicas que podem ser adotadas nas cidades para reduzir as disparidades de gênero ao ampliar oportunidades e remover barreiras, incluem:

➔ políticas públicas que vão aumentar a participação de mulheres na força de trabalho e aumentar a geração de renda;
➔ ações para facilitar o acesso a finanças para mulheres (para empreender ou moradia);
➔ serviços e infraestruturas que levem em consideração a realidade das mulheres urbanas (ex. deslocamento maior por transportes públicos);
➔ desenho urbano e intervenções que tornem espaços públicos mais acessíveis e seguros, reduzindo a vulnerabilidade ao crime e ao assédio.

 

Um cuidado que é preciso ter ao pensar cidades para mulheres é não pensar ações que podem reforçar desigualdades de gênero ao enraizar ainda mais funções tradicionalmente assumidas pelas mulheres (tarefas domésticas e de maternidade). Neste sentido, se é sim fundamental pensar em ações que busquem, por exemplo, facilitar a mobilidade das mulheres para realizar os deslocamentos entre domicílio, creche, escola, é preciso também, e com mais força, atacar o problema em sua raiz mais profunda, que é a mudança cultural e de comportamento da sociedade como um todo.

 

Como visto, para reduzir as desigualdades de gênero nos centros urbanos brasileiros é preciso uma conjunção de fatores e intervenções multissetoriais e em diversas camadas. Independente, todas começam por reformas estruturais que passam pelo Estado e pela necessária colaboração entre diferentes atores e níveis de governança. Só será possível se houver um compromisso de atores e convergência de agenda.

 

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