O ano era 1989 e o País realizava sua primeira eleição presidencial, na Nova República. Havia um entusiasmo cívico. Em meio a tudo aquilo, o grande desafio ainda era a consolidação da democracia. A Constituição cumpria seu primeiro ano, e o debate que se abria dizia respeito ao modelo de Estado e às reformas que o País deveria enfrentar. Veio de Mário Covas a frase síntese daquele momento: “O Brasil precisa de um choque de capitalismo”. O dito era provocativo, mas refletia à perfeição o espírito do tempo: a queda do Muro de Berlim, o “fim da história”, de Fukuyama, a explosão das democracias, mundo afora, e os avanços da abertura econômica global. Um “mundo em reformas”, como definiu, à época, a Revista The Economist.
Sob certo aspecto, aquela provocação continua traduzindo o desafio brasileiro, quase quatro décadas depois: a consolidação de uma democracia liberal, plural, fundada em direitos, e uma economia de mercado inclusiva, sustentada por governos eficientes, responsabilidade fiscal, regras claras e segurança jurídica para quem deseja empreender e investir.
Nos anos 90, o País de fato engrenou em um programa de reformas. A reforma do Estado, com a criação das Organizações Sociais, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a abertura do sistema de telefonia ao mercado e as privatizações. Em especial, o fim da inflação, com o Plano Real, talvez até hoje nosso grande modelo de uma política pública inteligente e politicamente bem conduzida. Os anos 90 também marcaram a emergência de um novo protagonismo da sociedade civil. A Comunidade Solidária, à época, apontou um caminho, a partir de dois conceitos bastante simples: comunidades e organizações assumindo protagonismo em políticas públicas, em parceria com o Estado, e políticas sociais visando a emancipação das pessoas, e não sua dependência em relação a qualquer governo.
Muitos imaginaram que o País pudesse rapidamente alcançar um consenso sobre estes temas. Em alguns países da América Latina, como o Chile e o Uruguai, houve de fato um forte avanço em consensos sobre políticas públicas. É difícil dizer que este tenha sido o caso do Brasil. Se alguém discordar, vale fazer algumas perguntas: há consenso no País sobre o tema da responsabilidade fiscal? O País fez a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000, mas a cultura do rigor fiscal foi, de fato, internalizada pelo sistema político?
E o tema da modernização econômica. No início dos anos 80, um trabalhador brasileiro alcançava perto de metade da produtividade de seus pares, nos Estados Unidos. Esta relação declinou para algo próximo a um quarto, quatro décadas depois. O que exatamente aconteceu? Uma economia fechada? O peso da carga tributária e da burocracia estatal? A ineficiência crônica de nossa educação pública? Um ambiente regulatório pouco favorável à inovação e ao investimento?
Haveria muitas perguntas, aqui. O fato é que o País chega à sua décima eleição presidencial, em 2026, com agendas cruciais a serem enfrentadas. Mesmo um consenso em torno de regras democráticas e princípios de ética pública, que em algum momento imaginamos ter alcançado, são hoje colocados em questão. O País soube fazer reformas importantes ao longo do tempo. Reforma previdenciária, reforma trabalhista, marco do saneamento, autonomia do Banco Central. Essas experiências demonstram que o País é capaz de avançar quando consegue construir convergências. Talvez elas possam nos inspirar para seguir em frente.
Mas o desafio que se coloca não é apenas o de seguir reformando. É também o de construir projetos de longo prazo, capazes de sobreviver a ciclos eleitorais e disputas conjunturais. Quem sabe o País possa entender que políticas públicas eficientes, rigor na mensuração de impacto social, ambiente favorável ao investimento, igualdade no acesso à educação de qualidade, bem como a emancipação – e não a dependência ao Estado – das pessoas em situação de pobreza, prosseguem sendo desafios civilizatórios, no Brasil de hoje.
A estes temas, um novo desafio estrutural se colocou ao País: a segurança pública. Se o crime organizado ganhou uma nova dimensão, penetrando na atividade econômica do País, talvez não exista desafio mais urgente do que este a ser enfrentado. No conjunto, são temas que precisam estar na pauta do debate eleitoral, seja no plano dos Estados, seja da União. Há temas que transcendem as estratificações ideológicas e exigem uma abordagem que ultrapasse o conflito político imediato.
A Comunitas integra este esforço da sociedade civil brasileira. A melhor contribuição que podemos dar ao País é qualificar o debate e apoiar a construção de uma agenda de Estado — e não apenas de governos — orientada não só por reformas necessárias, mas também por projetos estruturantes de longo prazo, reduzindo o peso do Estado onde ele é ineficiente, melhorando o ambiente de negócios e a eficiência das políticas sociais.
Trata-se de um desafio que pertence aos brasileiros, independente da visão política de cada um, e que precisa ocupar o centro do debate nacional ao longo de 2026.
*Esse conteúdo pode não refletir a opinião da Comunitas e foi produzido exclusivamente pelo especialista da Nossa Rede Juntos.
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Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
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