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Turismo não é evento: é estratégia fiscal no novo modelo tributário

Publicado em: 27.03.26
Escrito por: Annibal Bianchini Tempo de leitura: 5 min Temas: Desenvolvimento econômico, Turismo
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Durante muito tempo, o turismo foi tratado pelos municípios como um setor complementar — quase sempre associado a eventos pontuais, campanhas de divulgação ou ações sazonais.

Essa lógica funcionou por um tempo.

Mas o cenário mudou.

Com a Reforma Tributária, o Brasil inicia uma transição importante: a arrecadação deixa de estar concentrada na produção e passa a ser orientada pelo consumo no destino. Na prática, isso altera profundamente a forma como as cidades precisam pensar seu desenvolvimento econômico.

E é nesse ponto que o turismo deixa de ser acessório e passa a ser estratégico.

O que muda, na prática?

A mudança pode parecer técnica, mas seus efeitos são bastante concretos.

Cidades que hoje dependem fortemente da prestação de serviços — muitas delas com arrecadações relevantes de ISS — passam a enfrentar um novo desafio: como manter sua base de receita em um modelo que privilegia o consumo local?

A resposta não está apenas na atração de empresas.

Ela está, cada vez mais, na capacidade de atrair pessoas — e, principalmente, fazer com que elas consumam na cidade.

O turismo entra exatamente nesse espaço.

Turismo como política econômica

Existe uma característica do turismo que, muitas vezes, é subestimada: ele traz dinheiro de fora e o distribui rapidamente na economia local.

Quando um visitante chega a uma cidade, ele consome hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços diversos. Esse movimento ativa múltiplos setores ao mesmo tempo e amplia a circulação de recursos no território.

Em um cenário em que a arrecadação passa a depender do consumo, isso deixa de ser apenas desenvolvimento econômico.

Passa a ser estratégia fiscal.

Um exemplo concreto: Maringá

Esse movimento já pode ser observado em algumas cidades que começam a se antecipar ao novo cenário.

Maringá, por exemplo, consolidou ao longo dos anos uma forte base econômica no setor de serviços, ultrapassando R$ 500 milhões em arrecadação de ISS em 2025. Com a mudança no modelo tributário, essa estrutura passa a exigir novas estratégias de sustentação.

A resposta tem sido clara: fortalecer o turismo como vetor de consumo e dinamização econômica.

Isso se materializa, por exemplo, na estruturação de eventos, na organização da oferta turística e na incorporação de tecnologia e dados na gestão do setor — um movimento alinhado ao conceito de Destino Turístico Inteligente.

O papel dos eventos — e seus limites

Eventos seguem sendo fundamentais. Eles são, na prática, os principais indutores de fluxo em muitas cidades.

Mas há um ponto importante: evento, por si só, não resolve.

O impacto econômico real depende do que acontece ao redor dele.

Em Maringá, a Maringá Encantada ilustra bem essa lógica. Mais do que um evento de fim de ano, ela passou a atuar como ativadora da economia local, ampliando a ocupação hoteleira, movimentando o comércio e estimulando o consumo.

Mas esse resultado não acontece automaticamente.

Ele depende de uma cidade preparada para receber, reter e engajar o visitante.

O desafio não é atrair — é reter e gerar consumo

Esse talvez seja o principal ponto de mudança.

Durante muito tempo, o foco esteve na atração de visitantes.

Agora, o foco precisa ser ampliado:

  • quanto tempo esse visitante permanece?
  • quanto ele consome?
  • por onde ele circula?
  • quais experiências ele vive?

Sem essa visão, o fluxo não se transforma em resultado econômico.

Gestão, dados e integração

Outro aspecto que ganha relevância nesse novo cenário é a gestão.

O turismo contemporâneo exige integração entre diferentes áreas — desenvolvimento econômico, planejamento urbano, cultura, eventos, tecnologia — e uma forte base de dados para tomada de decisão.

Ferramentas como observatórios, plataformas digitais e sistemas de informação passam a ter papel central, permitindo compreender o comportamento do visitante e orientar estratégias com mais precisão .

Mais do que promover, é preciso gerir.

Um novo papel para o turismo nas cidades

O que se observa, portanto, é uma mudança de posicionamento.

O turismo deixa de ser tratado como uma agenda setorial e passa a ocupar um espaço mais amplo dentro da estratégia das cidades.

Ele se conecta com:

  • desenvolvimento econômico
  • planejamento urbano
  • geração de receita
  • qualificação da experiência urbana

E, principalmente, com a capacidade de gerar consumo no território.

Um movimento que já começou

A transição para o novo modelo tributário será gradual, mas seus efeitos já começam a orientar decisões estratégicas.

Cidades que conseguirem se adaptar mais rapidamente tendem a sair na frente.

Não necessariamente aquelas com mais atrativos, mas aquelas que conseguirem estruturar melhor sua oferta, integrar seus atores e transformar fluxo em consumo.

No fim, a pergunta é simples

O turismo sempre foi visto como uma oportunidade.

Agora, ele passa a ser uma necessidade estratégica.

Diante desse novo cenário, a questão deixa de ser se a cidade deve investir em turismo.

A pergunta passa a ser outra:

ela está preparada para transformar visitantes em consumo — ou vai assistir sua arrecadação diminuir ao longo dos próximos anos?



*Esse conteúdo pode não refletir a opinião da Comunitas e foi produzido exclusivamente pelo especialista da Nossa Rede Juntos.

Artigo escrito por: Annibal Bianchini
Secretário de Aceleração Econômica e Turismo
Prefeitura Municipal de Maringá
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