Durante muito tempo, o turismo foi tratado pelos municípios como um setor complementar — quase sempre associado a eventos pontuais, campanhas de divulgação ou ações sazonais.
Essa lógica funcionou por um tempo.
Mas o cenário mudou.
Com a Reforma Tributária, o Brasil inicia uma transição importante: a arrecadação deixa de estar concentrada na produção e passa a ser orientada pelo consumo no destino. Na prática, isso altera profundamente a forma como as cidades precisam pensar seu desenvolvimento econômico.
E é nesse ponto que o turismo deixa de ser acessório e passa a ser estratégico.
O que muda, na prática?
A mudança pode parecer técnica, mas seus efeitos são bastante concretos.
Cidades que hoje dependem fortemente da prestação de serviços — muitas delas com arrecadações relevantes de ISS — passam a enfrentar um novo desafio: como manter sua base de receita em um modelo que privilegia o consumo local?
A resposta não está apenas na atração de empresas.
Ela está, cada vez mais, na capacidade de atrair pessoas — e, principalmente, fazer com que elas consumam na cidade.
O turismo entra exatamente nesse espaço.
Turismo como política econômica
Existe uma característica do turismo que, muitas vezes, é subestimada: ele traz dinheiro de fora e o distribui rapidamente na economia local.
Quando um visitante chega a uma cidade, ele consome hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços diversos. Esse movimento ativa múltiplos setores ao mesmo tempo e amplia a circulação de recursos no território.
Em um cenário em que a arrecadação passa a depender do consumo, isso deixa de ser apenas desenvolvimento econômico.
Passa a ser estratégia fiscal.
Um exemplo concreto: Maringá
Esse movimento já pode ser observado em algumas cidades que começam a se antecipar ao novo cenário.
Maringá, por exemplo, consolidou ao longo dos anos uma forte base econômica no setor de serviços, ultrapassando R$ 500 milhões em arrecadação de ISS em 2025. Com a mudança no modelo tributário, essa estrutura passa a exigir novas estratégias de sustentação.
A resposta tem sido clara: fortalecer o turismo como vetor de consumo e dinamização econômica.
Isso se materializa, por exemplo, na estruturação de eventos, na organização da oferta turística e na incorporação de tecnologia e dados na gestão do setor — um movimento alinhado ao conceito de Destino Turístico Inteligente.
O papel dos eventos — e seus limites
Eventos seguem sendo fundamentais. Eles são, na prática, os principais indutores de fluxo em muitas cidades.
Mas há um ponto importante: evento, por si só, não resolve.
O impacto econômico real depende do que acontece ao redor dele.
Em Maringá, a Maringá Encantada ilustra bem essa lógica. Mais do que um evento de fim de ano, ela passou a atuar como ativadora da economia local, ampliando a ocupação hoteleira, movimentando o comércio e estimulando o consumo.
Mas esse resultado não acontece automaticamente.
Ele depende de uma cidade preparada para receber, reter e engajar o visitante.
O desafio não é atrair — é reter e gerar consumo
Esse talvez seja o principal ponto de mudança.
Durante muito tempo, o foco esteve na atração de visitantes.
Agora, o foco precisa ser ampliado:
- quanto tempo esse visitante permanece?
- quanto ele consome?
- por onde ele circula?
- quais experiências ele vive?
Sem essa visão, o fluxo não se transforma em resultado econômico.
Gestão, dados e integração
Outro aspecto que ganha relevância nesse novo cenário é a gestão.
O turismo contemporâneo exige integração entre diferentes áreas — desenvolvimento econômico, planejamento urbano, cultura, eventos, tecnologia — e uma forte base de dados para tomada de decisão.
Ferramentas como observatórios, plataformas digitais e sistemas de informação passam a ter papel central, permitindo compreender o comportamento do visitante e orientar estratégias com mais precisão .
Mais do que promover, é preciso gerir.
Um novo papel para o turismo nas cidades
O que se observa, portanto, é uma mudança de posicionamento.
O turismo deixa de ser tratado como uma agenda setorial e passa a ocupar um espaço mais amplo dentro da estratégia das cidades.
Ele se conecta com:
- desenvolvimento econômico
- planejamento urbano
- geração de receita
- qualificação da experiência urbana
E, principalmente, com a capacidade de gerar consumo no território.
Um movimento que já começou
A transição para o novo modelo tributário será gradual, mas seus efeitos já começam a orientar decisões estratégicas.
Cidades que conseguirem se adaptar mais rapidamente tendem a sair na frente.
Não necessariamente aquelas com mais atrativos, mas aquelas que conseguirem estruturar melhor sua oferta, integrar seus atores e transformar fluxo em consumo.
No fim, a pergunta é simples
O turismo sempre foi visto como uma oportunidade.
Agora, ele passa a ser uma necessidade estratégica.
Diante desse novo cenário, a questão deixa de ser se a cidade deve investir em turismo.
A pergunta passa a ser outra:
ela está preparada para transformar visitantes em consumo — ou vai assistir sua arrecadação diminuir ao longo dos próximos anos?
*Esse conteúdo pode não refletir a opinião da Comunitas e foi produzido exclusivamente pelo especialista da Nossa Rede Juntos.
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