Do tapete vermelho à política de Estado: o que Brasil precisa aprender com Coreia e Índia
Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil está no Oscar. Com quatro indicações – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco -, ‘O Agente Secreto’, além de tudo, colocou Wagner Moura na história como o primeiro brasileiro indicado à estatueta de Melhor Ator. O feito, porém, não é fruto do acaso; é apenas a ponta visível de um processo estruturado: investimento público consistente, amadurecimento técnico e a consolidação de uma cinematografia diversa e competitiva.
O marco, somado à vitória de ‘Ainda Estou Aqui’ no ano passado, desenha um novo cenário. O Brasil deixou de ser promessa para se tornar presença constante – será? – no circuito mais disputado do cinema mundial. Mas, por trás de todo glamour dos tapetes vermelhos, existe uma rede de trabalho, muitas vezes invisível ao grande público, que faz a magia do cinema acontecer. Por isso, o desafio que se impõe agora é transformar o reconhecimento internacional em política de Estado duradoura.
Para fortalecer o Soft Power brasileiro, não basta celebrar prêmios – é necessário investir na estrutura que sustenta a criação: formação técnica de excelência, inovação tecnológica, coprodução internacional e modelos industriais capazes de transformar talento em escala produtiva.
Soft power é a capacidade de um país influenciar o mundo por meio da cultura, dos valores e da imagem que projeta, e não pela força militar ou econômica. É o que a Coreia faz com o K-pop, a Índia faz com Bollywood, a Hollywood indiana, e o que o Brasil começa a fazer com o cinema: transformar talento em influência global.
Este texto pretende analisar como o aumento do investimento público no setor, aliado à busca por referências internacionais, pode converter o atual prestígio do cinema brasileiro em uma estratégia nacional de desenvolvimento, capaz de consolidar o audiovisual como vetor estratégico de crescimento econômico, diplomacia cultural e geração de emprego qualificado.
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O peso dos números: quando o audiovisual vira política industrial
Se as indicações ao Oscar são a face visível do novo momento do cinema brasileiro, os números que sustentam essa vitrine apontam para um fenômeno que vai além da celebração artística, mostrando que o audiovisual vive seu ciclo mais robusto de investimentos e geração de riqueza, com impactos diretos na economia real.
Os dados consolidados de 2025 não poderiam ser mais animadores para quem trabalha na área: o governo federal injetou R$ 1,41 bilhão no setor, o maior volume da série histórica – crescimento de 29% em relação a 2024 e de 179% na comparação com 2021. Esse montante se traduziu em 1.556 projetos em execução e um recorde de 3.981 obras brasileiras registradas no último ano.
O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) respondeu pela maior parcela, com R$ 564 milhões em investimentos diretos para filmes e séries, além de R$ 411 milhões em crédito para infraestrutura e modernização de estúdios. Completam o montante R$ 437 milhões captados via leis de incentivo fiscal.
O resultado aparece na ponta. Segundo a Oxford Economics, o audiovisual adicionou R$ 70 bilhões à economia brasileira em 2024 e gerou 608 mil empregos diretos e indiretos. O número supera setores tradicionais, como o automobilístico, que no mesmo período empregou cerca de 400 mil pessoas. Ou seja: a indústria criativa já gera 50% mais postos de trabalho que um dos pilares históricos da indústria nacional.
Esse ciclo virtuoso também se reflete nas salas de cinema. Em 2024, o Brasil ultrapassou 125 milhões de ingressos vendidos, com arrecadação de R$ 2,5 bilhões. A participação do cinema brasileiro no público saltou de 3,2% em 2023 para 10% em 2024, impulsionada pela retomada da política de cotas de tela e por títulos como ‘Ainda Estou Aqui’, que isoladamente superou 5,8 milhões de espectadores.
*** Cota de tela é a lei que obriga cinemas a reservarem um percentual mínimo de sessões para filmes brasileiros. O percentual varia de 7,5% a 16% conforme o tamanho do complexo, garantindo que a produção nacional tenha espaço nas telas e possa competir com os grandes lançamentos estrangeiros. ***
O que os números revelam, portanto, é que o Oscar não é exceção. É a ponta visível de um processo estruturado, como já mencionado, que combina investimento público consistente, retomada de políticas setoriais e descentralização produtiva (fora do eixo Rio-São Paulo). O Brasil não está colhendo frutos do acaso – está colhendo o que plantou nos últimos anos.
Com mais uma indicação do Brasil ao Oscar, o governo brasileiro incluiu o audiovisual numa missão presidencial oficial, realizada agora em fevereiro, com status estratégico. O destino foram a Índia e a Coreia do Sul, os dois maiores cases globais de economia criativa da atualidade. Liderada pela recém-criada Federação da Indústria e Comércio do Audiovisual Brasileiro (FICA), a comitiva foi buscar troca de conhecimento para estruturar um modelo industrial para o seu talento criativo. Os principais objetivos da missão foram:
Formação como motor da transformação
Entretanto, para além dos acordos comerciais e das rodadas de negócio, um dos eixos mais estratégicos da missão à Índia e à Coreia do Sul foi a estruturação de alianças voltadas à formação de talentos e à inovação tecnológica. Ao compreender que o audiovisual brasileiro só atingirá a maturidade industrial se for sustentado por uma mão de obra qualificada, a comitiva articulada pela FICA buscou nos modelos asiáticos a base para coordenar investimento público e privado na capacitação técnica do setor.
O objetivo é converter o atual momento de prestígio internacional em um sistema permanente de ensino profissionalizante, que integre o domínio de tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial, à gestão de negócios globais e às boas práticas de coprodução internacional. Dessa maneira, a formação deixa de ser um ‘apêndice cultural’ para se tornar o motor de uma geração de emprego qualificado – garantindo que o Brasil não apenas produza conteúdo premiado, mas domine as ferramentas de inovação que definem a competitividade no Sul Global.
O modelo coreano de formação técnica: lições para o Brasil
Enquanto o Brasil celebra as indicações ao Oscar e negocia acordos de coprodução com gigantes asiáticos, a Coreia do Sul oferece um ensinamento ainda mais estrutural, visto que não há indústria criativa forte sem um sistema nacional de formação técnica que alimente a cadeia produtiva de forma contínua e descentralizada. O país que transformou a Hallyu (onda coreana) em fenômeno global construiu, nas últimas décadas, um ecossistema de capacitação profissional que combina certificação estatal, ensino superior integrado, parcerias com a indústria e metas públicas audaciosas de formação em novas tecnologias.
A base de todo esse sistema é a certificação profissional gerida pelo Estado. Diferentemente do Brasil, onde a qualificação no setor audiovisual é fragmentada e autorregulada, a Coreia opera um modelo de National Vocational Qualification (Qualificação Nacional de Vocação, em tradução livre) para o cinema, coordenado pelo Korean Film Council (KOFIC). Na prática, o governo define padrões técnicos nacionais para cada função da cadeia produtiva – de projecionistas a técnicos de som -, regula a oferta de mão de obra e garante qualidade por meio de certificações oficiais.

Cena do filme sul-coreano Parasita, o primeiro filme de língua não-inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Filme em 2020. Crédito da Imagem: Estação Nerd.
No centro da formação de elite, está a Korean Academy of Film and Arts (KAFA), escola de cinema pública vinculada ao KOFIC e responsável por formar diretores como Bong Joon-ho (Parasita) e Park Chan-wook (Oldboy). Com currículo baseado em produção prática e imersão em todas as etapas do fazer cinematográfico – do roteiro à pós-produção -, a KAFA funciona como uma verdadeira ‘fábrica de talentos’ que alimenta o mercado coreano com profissionais de alto nível. Tão relevante é seu modelo que o governo coreano já exporta essa metodologia. Em 2024, a KAFA realizou seu primeiro boot camp na Arábia Saudita, formando 18 jovens cineastas em Riad e plantando sementes da onda coreana no Oriente Médio.
Boot camp é um modelo de treinamento intensivo e imersivo, geralmente de curta duração, que combina aprendizado acelerado com prática hands-on. Originalmente usado no treinamento militar, o termo foi incorporado por diversas áreas – incluindo o audiovisual – para descrever programas que mergulham os participantes em experiências práticas intensas, preparando-os de forma rápida e concentrada para o mercado de trabalho.
Mas o salto mais impressionante ocorre no ensino superior, com a aposta em programas de pós-graduação que integram arte, engenharia e negócios. A Chung-Ang University criou, em 1999, a Graduate School of Advanced Imaging Science, Multimedia and Film (GSAIM), um programa de pós-graduação que é referência mundial em convergência tecnológica e criativa. Com 20 professores doutores em tempo integral e currículos que vão de ‘AI Imaging’ a ‘OTT Content Planning’, a GSAIM é a única escola do país a ser selecionada consecutivamente em todas as fases do programa BK21 (Brain Korea 21) – o principal fundo governamental para excelência acadêmica. De lá saíram mais de 1.300 mestres e 300 doutores, muitos deles com obras premiadas em festivais como Cannes e Berlim.
A formação técnica coreana também dialoga com as demandas do mercado global. Em parceria com a Netflix, o governo já treinou mais de 1.000 profissionais em planejamento e pós-produção para OTT (streaming), em programas como o KOCCA x Netflix Production Academy, que desde 2023 já formou mais de 2.300 pessoas em 8 cursos especializados, incluindo efeitos visuais, dublagem global e legendagem localizada. A colaboração vai além da capacitação básica: em 2025, Netflix e KAFA promoveram um masterclass de 5 dias com veteranos de Hollywood para diretores coreanos selecionados, introduzindo métodos como o writer’s room – ainda pouco difundido na Coreia – e oferecendo mentorias individuais para refinamento de roteiros.
O governo coreano não para nos cursos tradicionais. Há metas públicas audaciosas de formação em tecnologias emergentes, especialmente em Inteligência Artificial para audiovisual. Em janeiro deste ano, o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo anunciou um investimento de 43 bilhões de wons (cerca de US$ 29,4 milhões) em programas de capacitação em IA, com o objetivo de formar mais de 3.400 profissionais no ano. O carro-chefe é a AI Specialized Content Academy, que planeja treinar 1.200 especialistas em diferentes níveis: 900 iniciantes, 100 profissionais experientes e 100 desempregados em transição de carreira.
Além disso, o plano quinquenal da indústria de animação (2025-2030) prevê treinamento especializado em parceria com universidades para atender à demanda por adaptações de webtoons (quadrinhos digitais coreanos, feitos para leitura em celulares e que frequentemente viram filmes e séries de sucesso), além de cursos em IA aplicada a conteúdo. A Korea Creative Content Agency (KOCCA) destinou 7,9 bilhões de wons para o projeto AI Specialized Content Academy, que formará 900 criadores em noções básicas de IA e 100 profissionais experientes em projetos práticos ainda em 2026.
O modelo indiano de formação técnica: escala, tradição e profissionalização
Se a Coreia do Sul representa o planejamento estatal meticuloso e a certificação centralizada, a Índia oferece ao Brasil uma lição de escala, capilaridade e autossustentabilidade. O país é hoje o maior produtor de filmes do mundo em volume anual – são mais de 1.500 a 2.000 filmes por ano em dezenas de idiomas -, com uma produção nacional que detém cerca de 90% de participação no mercado interno, um fenômeno raríssimo num mundo dominado por produções americanas. Para sustentar essa máquina, a Índia desenvolveu um sistema de formação técnico-profissional que combina tradição secular, profissionalização massiva e integração com a indústria global.
Diferentemente do modelo coreano, a Índia construiu seu ecossistema de talentos com base em estruturas familiares e aprendizado prático. É tradição em Bollywood a passagem de testemunho entre famílias – como a família Kapoor, com quatro gerações de atores no negócio do cinema, ou os Bachchan, que há décadas dominam as telas.
Nos bastidores, essa lógica se reproduz em toda a cadeia produtiva. Figurantes, técnicos de iluminação, maquiadores, eletricistas e profissionais de apoio entram na indústria pelo contato direto com quem já está estabelecido, aprendendo na prática – do motorista da van ao assistente de câmera. O resultado é um dos maiores contingentes de mão de obra qualificada do mundo: o setor audiovisual indiano emprega, direta ou indiretamente, mais de 2,6 milhões de pessoas, número que supera populações inteiras de países vizinhos.

Ranbir Kapoor e Deepika Padukone estrelam a comédia romântica Amor de Jovens – Foto: Reprodução/IMDb
Apesar da força da tradição familiar, a Índia também investe em instituições públicas de excelência para a formação técnica e superior em audiovisual. O Satyajit Ray Film and Television Institute (SRFTI), localizado em Calcutá, é uma das principais escolas de cinema do país, financiada pelo governo federal e reconhecida internacionalmente pela qualidade de seus cursos nas áreas de direção, cinematografia, edição, som e animação.
A relevância do SRFTI é tamanha que, em fevereiro deste ano – em paralelo à missão oficial brasileira à Índia -, a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) assinou um Memorando de Entendimento com o instituto indiano, justamente para abrir possibilidades futuras de diálogo acadêmico na área do cinema e do audiovisual. O acordo prevê mobilidade acadêmica para estudantes e professores, projetos conjuntos de pesquisa, organização de eventos e intercâmbio de materiais educacionais, refletindo o reconhecimento brasileiro de que a Índia tem um modelo de ensino técnico com o qual podemos aprender.
O cinema indiano não é forte apenas em volume, mas também em sofisticação técnica. Especialistas apontam que a pós-produção de imagem e som na Índia é referência no mundo todo – um patamar alcançado graças a décadas de investimento em capacitação profissional e modernização de estúdios. O país domina tecnologias como efeitos visuais, mixagem de som em múltiplos canais e finalização digital, competindo de igual para igual com os grandes centros globais e atendendo grandes estúdios de Hollywood e plataformas de streaming, como Netflix, Prime Video e Disney+.
Além disso, a Índia desenvolveu um modelo de integração entre música e cinema, visto que todos os filmes indianos são musicais, que gera uma cadeia produtiva paralela de formação. Cantores de playback, coreógrafos e músicos são tão importantes quanto os atores. O sucesso ou fracasso de uma produção é frequentemente medido pela resposta do público às canções lançadas antes da estreia – o que cria um sistema de feedback constante entre formação artística e mercado, realimentando a indústria.
A Índia ocupa hoje a terceira posição global entre os maiores fornecedores de conteúdo para streaming, atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão, com títulos que circulam em mais de 90 países. As receitas internacionais seguem em expansão, e o caso de Dangal é bastante simbólico: o filme arrecadou cerca de US$ 303 milhões mundialmente, sendo aproximadamente US$ 193 milhões apenas na China – mais até do que no próprio mercado indiano, provando que é possível furar a bolha cultural e conquistar audiências globais sem abandonar a identidade local. Essa projeção só é possível porque a Índia formou gerações de profissionais capazes de operar em padrões técnicos internacionais, sem perder a essência cultural.
O desafio do Brasil
O Brasil não precisa copiar modelos – e nem é esse o objetivo -, mas precisa construir o seu próprio sistema nacional de formação audiovisual, com escala e coordenação. A missão aos dois países asiáticos revela a intenção de transformar o talento nacional – que existe e já é reconhecido – em modelo industrial. O próximo passo, porém, é interno: estruturar um sistema nacional de formação técnica, descentralizar oportunidades e garantir continuidade institucional.
Países que lideram a economia criativa compreenderam que cultura não é ornamento, é estratégia de desenvolvimento. Se o Brasil quiser consolidar seu lugar no circuito global, precisará fazer da criatividade não apenas sua identidade, mas sua política industrial permanente.
O Brasil tem talento – isso o Oscar já provou. Mas teremos capacidade de transformar prêmios em política industrial? O que você acha que falta para o audiovisual brasileiro decolar de vez? Deixe sua opinião!
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