Pesquisas eleitorais e democracia
Julho, 2022

Foto por Element5 Digital | Unsplash
Eleições são momentos decisivos da vida política de países democráticos. Quando o eleitorado entende que seus representantes estão no caminho certo, ele tende a votar em candidatos da situação. Em sentido contrário, quando eleitores percebem que há equívocos em relação ao que entendem ser o melhor para a coletividade, candidatos da oposição costumam sair-se melhor. Ao longo desse processo, pesquisas eleitorais são de grande importância, pois conferem mais transparência ao processo eleitoral, reforçam a confiança no sistema político e direcionam o eleitorado para o exercício do voto útil.
Pesquisas eleitorais aprimoram a transparência das disputas políticas. Elas melhoram a qualidade da democracia, pois servem como guias estatisticamente seguros a respeito da idoneidade dos resultados eleitorais. Embora resultados inesperados também aconteçam, na medida em que as emoções humanas estão sujeitas a mudanças, elas permitem avaliar o processo de formação da vontade do eleitor com base em variáveis como discurso político, carisma e tempo de televisão.
No Brasil, especificamente, esses levantamentos precisam ser registrados na justiça eleitoral e por conseguinte, criam-se incentivos extras para que institutos de pesquisa, atentos a seus riscos reputacionais, sigam as regras do jogo. Analisados sistematicamente, além disso, esses levantamentos são fontes primárias importantes para pesquisas acadêmicas posteriores.
A confiança no sistema político é outro benefício da realização de pesquisas eleitorais. Corolário da transparência, ela contribui para que o espaço público seja aberto à competição. Como via de regra, essas pesquisas devem ser realizadas por terceiros a fim de reduzir-se o clássico problema entre agente (instituições que realizam as pesquisas) e principal (governo).
Esse persistente conflito de interesses marcou a história de diversos países. Em algumas nações da América Latina, por exemplo, onde a justiça eleitoral passa por interferências governamentais constantes, a realização de pesquisas eleitorais independentes é fundamental como elemento de contestação.
O sistema representativo, todavia, não deve ser confiável apenas durante as eleições. A realização de estudos durante os mandatos políticos, nesse sentido, reforça o vínculo de confiança entre a população e seus governantes. Em Santos, durante os oito anos em que estivemos à frente da prefeitura, avaliar constantemente a satisfação da população com as medidas adotadas em nossa gestão consolidou-se como uma regra de ouro.
Aspecto por vezes estigmatizado sobre os efeitos de levantamentos das intenções de voto dos candidatos é o de sua contribuição para a manifestação do “voto útil” dos cidadãos. À primeira vista, tende-se a pensar que as pesquisas beneficiam o status quo, ou que não refletem as verdadeiras aspirações populares. Essa percepção, contudo, é equivocada.
Em primeiro lugar, porque ela parte da premissa que o voto útil é um voto irrefletido, baseado no “comportamento de manada” dos eleitores. Sabe-se, no entanto, que ao início de campanhas eleitorais, um número expressivo de cidadãos ainda não decidiu em quem votar. A convicção do eleitor, portanto, desenvolve-se ao longo do tempo, o que é indicativo de sua abertura a novas propostas. Em segundo lugar, ignora-se o fato de que o chamado voto útil é também o voto do cidadão na condição de membro da sociedade, e, nesse sentido, uma chancela aos candidatos que se mostrem mais consistentes para a defesa de interesses comuns, e não necessariamente de suas “paixões” individuais.
Pesquisas eleitorais são um dos pilares contemporâneos da democracia. Elas tornam as disputas eleitorais mais transparentes e competitivas, além de constituírem registro dos humores da população. Ao serem realizadas externamente ao governo, reforçam a integridade do espaço público. Por fim, servem para orientar os cidadãos a tomarem decisões que equilibrem, com maior propriedade, suas preferências pessoais e as necessidades da população em geral.
*Esse conteúdo pode não refletir a opinião da Comunitas e foi produzido exclusivamente pelo especialista da Nossa Rede Juntos.
Postagens relacionadas
Quais são as responsabilidades de uma equipe de transição?
O papel do verificador independente em contratos por desempenho
Nova agenda regulatória da ANS será decisiva para futuro da saúde suplementar no Brasil
Lideranças com espírito público
Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
Deixe seu comentário!