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IA e Emergência Climática: Solução sustentável ou falso progresso?

Publicado em: 02.04.25
Escrito por: Caroline Bondim Cotta Tempo de leitura: 4 min Temas: Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Verde, Meio ambiente e Sustentabilidade
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O desenvolvimento sustentável, norteado pelo princípio dos 5Ps – Pessoas, Planeta, Prosperidade, Paz e Parcerias –, busca garantir que o progresso econômico não comprometa a integridade dos ecossistemas nem a justiça social. Contudo, a atual trajetória global segue um padrão de overshooting (sobrecarga), superando a capacidade de regeneração dos recursos naturais. Em 2024, o Earth Overshoot Day foi marcado em 1º de agosto, o que significa que, em apenas 7 meses, a humanidade consumiu o que o planeta pode regenerar em 12. Paralelamente, menos de 9% dos resíduos sólidos produzidos globalmente são reciclados, enquanto a produção de resíduos eletrônicos atingiu 59,4 milhões de toneladas em 2022, de acordo com o Global E-waste Monitor.

Você sabe o que é o Earth Overshoot Day?

Imagine que a Terra tem um orçamento de recursos naturais (como água, árvores, solo fértil, peixes, etc.) para ser usado ao longo de um ano inteiro. Esse “orçamento” inclui tudo que o planeta consegue regenerar naturalmente em 12 meses.

Ou seja, o Overshooting Day é a data em que a humanidade já usou tudo isso — ou seja, gastamos tudo antes do fim do ano. A partir dessa data, estamos vivendo no “cheque especial” do planeta, explorando mais do que ele consegue repor.

Como o último Overshooting Day caiu no mês de agosto, significa que:

  • Em apenas 7 meses, já usamos todos os recursos naturais que deveriam durar o ano inteiro;
  • Tudo o que usamos depois disso esgotou as reservas do planeta — como se cortássemos mais árvores do que podem crescer, pescássemos mais peixes do que nascem, e assim por diante.

Por que isso é um problema?

Porque usar mais do que a Terra consegue repor causa desequilíbrio: mais poluição, menos biodiversidade, mudanças climáticas, escassez de água, e crises ambientais.

Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) tem se destacado como uma ferramenta estratégica no combate às mudanças climáticas, com aplicações de alto potencial em diferentes frentes. No monitoramento ambiental, algoritmos de aprendizado de máquina permitem a análise de imagens de satélite e dados meteorológicos com altíssima resolução e em tempo real. O projeto Global Forest Watch, por exemplo, usa IA para detectar alertas de desmatamento com precisão de até 90% em florestas tropicais. Em termos energéticos, o uso de IA para otimização da matriz elétrica – como na gestão preditiva de redes inteligentes (smart grids) – pode reduzir as perdas de energia em até 15%, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Já na agricultura, soluções de IA aplicadas à irrigação inteligente e uso eficiente de fertilizantes podem aumentar a produtividade em até 20% e reduzir o uso de água em até 30%, conforme estudos da FAO, contribuindo para a redução da insegurança alimentar sem fazer uso excessivo de água.

No setor logístico e industrial, a IA permite traçar rotas mais eficientes, prever falhas em equipamentos e otimizar estoques, contribuindo diretamente para a redução do desperdício, colaborando com o atingimento da meta 12.5, referente a redução de despejo de resíduos sólidos, presente no ODS 12 –  Consumo e produção responsáveis. Estima-se que essas soluções possam diminuir em até 10% as emissões de carbono relacionadas ao transporte de cargas e à cadeia de suprimentos. Além disso, a expansão das tecnologias verdes com base em IA tem gerado empregos qualificados: segundo a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), o setor de energias renováveis empregava 13,7 milhões de pessoas em 2022, número que deve chegar a 38 milhões até 2030, com parte significativa ligada à digitalização do setor energético.

Contudo, os benefícios vêm acompanhados de custos ambientais e sociais significativos. A infraestrutura necessária para treinar grandes modelos de IA exige alto consumo energético. Estimativas apontam que o treinamento do modelo GPT-3 consumiu energeticamente o equivalente ao gasto mensal de cerca de 120 casas americanas. Além disso, grandes datacenters consomem, em média, 1,5 litros de água para cada kWh processado, o que pode representar bilhões de litros anuais apenas para resfriamento. A título de exemplo, em 2021, a Google reportou o uso de 15,79 bilhões de litros de água para operar seus datacenters globalmente.

A pegada de carbono da IA também é relevante. Um estudo da Universidade de Massachusetts revelou que o treinamento de um modelo de linguagem de última geração pode emitir até 284 toneladas de CO₂, o equivalente a 125 viagens de ida e volta entre Nova York e Pequim de avião. Além disso, a extração de minérios essenciais, como lítio, cobalto e níquel – usados em chips e baterias –, aumentou exponencialmente. A demanda por lítio, por exemplo, deverá crescer 42 vezes até 2040, segundo a Agência Internacional de Energia, colocando pressão sobre ecossistemas frágeis e comunidades vulneráveis. Além disso, cerca de 80% dos resíduos eletrônicos no mundo não são tratados de forma adequada, agravando a poluição do solo e das águas.

Diante desse panorama, torna-se imprescindível avaliar criticamente o papel da IA nas estratégias de enfrentamento da crise climática. Seu uso pode ser determinante na construção de soluções sustentáveis, mas, se desregulado, corre o risco de reforçar as dinâmicas insustentáveis que buscamos superar. A governança da IA, aliada à mensuração de sua pegada ambiental e à transição para matrizes energéticas limpas, será essencial para garantir que seus impactos positivos superem os negativos.

Por fim, deixo a reflexão: Será a IA a protagonista da transição verde ou um novo vetor de pressão ambiental? Cabe a nós definir os limites e as regras do jogo.

E você? Acredita que a IA está ajudando a salvar o planeta ou apenas mudando a forma de explorá-lo?



*Esse conteúdo pode não refletir a opinião da Comunitas e foi produzido exclusivamente pelo especialista da Nossa Rede Juntos.

Artigo escrito por: Caroline Bondim Cotta
Coordenadora de Inovação
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