Como pensar cidades para crianças

Foto por Cheung Yin | Unsplash

Pensar em cidades é pensar em infraestrutura, mobilidade, habitação… É, principalmente, pensar em pessoas. Isto porque não faz sentido pensar em pavimentação, rotas de ônibus e complexos habitacionais se não pensarmos naqueles que fazem a cidade acontecer e naqueles que vivem nela. Mas, quando paramos para pensar em quais medidas tomar para o desenvolvimento do espaço urbano, em quem você pensa? Executivos que trabalham de 9h às 18h? Idosos que caminham por calçadas esburacadas? Adultos em situação de rua?

E nas crianças que moram nessa cidade, você pensa? Na maioria das vezes, a resposta é não. O que ocorre nestes casos é que as crianças, na maior parte do tempo, precisam se adaptar às cidades e não o contrário. Será este o cenário ideal?

São as ruas sem iluminação, a falta de segurança pública, a inexistência de espaços públicos onde as crianças possam brincar livremente, a má conservação das ruas, os transportes públicos mal adaptados para receber bebês, a crescente poluição oriunda dos carros e das indústrias… entre outros. Algumas hipóteses podem ser consideradas quando nos questionamos o porquê de planejar cidades para crianças não é algo habitual nas administrações públicas atuais, porém a que mais se ressalta é que nós, adultos, não estamos acostumados a olhar a criança como um sujeito ativo e participante da vida na cidade. E é exatamente por esse motivo que precisamos parar e perguntar: Como pensar cidades para crianças?

Uma das maneiras para começar é colocar-se no lugar de criança, vestir uma capa que te faça voltar naquele tempo e olhar através das lentes pequeninas. É essencial compreender as necessidades desta parcela da população de modo que as ideias que venham a surgir sejam aplicáveis para a realidade da faixa etária de 0 a 12 anos. Ou seja, entender que nessa fase as crianças estão formando o seu vínculo de pertencimento e isto acontece no ambiente em que ela vive, não somente interno, como também externo. É através dos momentos que a criança interage com o mundo exterior que ela desenvolve seus estímulos e habilidades sensoriais. E, é por meio do brincar que elas começam a entender o lugar onde ocupam na sociedade.

Em outras palavras, é preciso pensar em espaços públicos que sirvam as crianças dos dias atuais. Logo, que haja lugar para a criança pular, correr, interagir com outras crianças, com a fauna e a flora da cidade. Adaptar as cidades com rampas, iluminação de rua, faixas de pedestres, calçadas amplas, redução da velocidade dos veículos motorizados nas pistas, encurtamento das distâncias para escolas e parques de recreação são maneiras de incentivar a criançada a desbravarem o mundo de maneira independente, na medida do possível, sem que haja a necessidade de cercear seu espaço a ambientes internos que os protejam dos perigos de viver nas cidades.

Os modelos de “cidades de 15 minutos”¹ podem ser uma boa opção para se pensar quando falamos sobre planejamento urbano para crianças. Isto porque através do encurtamento das distâncias e a possibilidade do indivíduo acessar serviços básicos através de uma caminhada permite que a garotada possa se deslocar pelos espaços públicos a fim de atender suas próprias necessidades. Ou seja, ir até a escola, ao parque ou ao clube passa a ser uma atividade onde não é mais preciso utilizar modos de transporte do qual o adulto seja o principal condutor.

Um exemplo de cidade brasileira que começou a planejar políticas públicas a qual olhassem para as crianças como parte integrante do todo e, que buscou desenhar iniciativas que as incluíam tanto quanto um adulto, foi o município de Jundiaí (SP) que em março de 2020 se uniu com a Urban95, braço da Fundação Bernard van Leer, para construir o Plano Municipal da Primeira Infância. Nele, foram elaboradas medidas como:

  • Programa Entre Casa e Escolas: programa que se propõe a qualificar o caminho que as crianças da rede pública de ensino fazem para ir para as escolas e voltar para casa;
  • Adesão ao programa Cidades Amigas das Crianças da UNICEF;
  • Criação do Comitê da Criança: espaço onde promove-se a escuta ativa de crianças de 9 a 11 anos de todas as regiões da cidade;
  • Instituição do decreto Ruas de Brincar: permissão para que as comunidades possam definir vias as quais as crianças possam brincar, entre outros.

ruas de brincarFoto por Urban95

Como exemplo internacional, podemos citar a cidade de Lexington no Kentucky (EUA), a qual juntamente com o Gehl Institute realizou uma pesquisa para descobrir a principal demanda dos cidadãos quanto a vida na cidade, e descobriu que a população local ansiava por um espaço público familiar para que os pais pudessem passar tempo com seus filhos e aproveitar a vida ao ar livre. Como consequência, o município inaugurou o SplashJAM, uma espécie de parque móvel com fontes de água para que os moradores pudessem aproveitar o espaço em dias muito quentes durante o verão. A iniciativa foi um sucesso, atraindo famílias de todas as regiões da cidade para passar o dia e deixar as crianças brincarem com mais liberdade e independência. Desde sua inauguração, o SplashJAM é reconstruído para que nos meses de Junho a Agosto as famílias de Lexington possam ter acesso ao lazer ao ar livre.

SplashJAMFoto por Prefeitura de Lexington

Estes dois exemplos mostram que seja o planejamento urbano pensado unicamente para crianças ou para famílias inteiras, o mais importante é não deixar de olhar para uma política pública pela ótica infantil, pois eles são parte fundamental da nossa sociedade e devem ser considerados como tais. Isto porque, será através destas crianças que agora constroem sua visão de mundo que a nossa sociedade irá prosperar em um futuro não muito distante daqui.

 

Fontes:
Uma cidade amigável às crianças é uma cidade melhor para todos
A importância de pensar a cidade sob a perspectiva da crianças
Cidades Urban95
Cidade e Infância: Uma perspectiva de direitos
What would the ultimate child-friendly city look like?
Does the 15-minute city work for children and caregivers?

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¹ O conceito sobre cidade de 15 minutos foi criado pelo professor francês Carlos Moreno, e teve sua primeira aplicação prática na cidade de Paris, na França. Para saber mais sobre esse modelo, assista ao TED Talk onde Carlos explica sobre o conceito desenvolvido pelo mesmo. 

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