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Muito além da folia: o carnaval como política pública de desenvolvimento

Publicado em: 12.02.26
Escrito por: Redação Tempo de leitura: 19 min Temas: Desenvolvimento econômico, Diversidade e Inclusão Social, Esporte e Lazer, Turismo
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Falar sobre o Carnaval é, antes de tudo, falar sobre o Brasil. Poucos fenômenos expressam de forma tão clara a combinação entre cultura popular, economia, identidade territorial e ação do poder público. Embora frequentemente associado apenas à celebração, à música e à ocupação festiva das ruas, o Carnaval é um evento de grande escala que mobiliza cadeias produtivas inteiras, pressiona serviços públicos, ativa o turismo e exige planejamento, coordenação e decisões estratégicas por parte dos gestores públicos.

Em um país marcado por desigualdades regionais e desafios estruturais, o Carnaval também revela contrastes: enquanto em grandes capitais as festividades carnavalescas movimentam bilhões de reais e atraem visitantes do mundo inteiro, em cidades médias e pequenas, o evento pode representar a principal fonte de renda do ano para microempreendedores, trabalhadores informais, artistas e comerciantes locais. Ao mesmo tempo, a concentração de pessoas em curto espaço de tempo impõe grandes desafios à saúde pública, à segurança, à mobilidade urbana e à governança intersetorial.

Mais do que uma festa, o Carnaval é um fenômeno econômico, social e urbano, com impactos que se desdobram sobre políticas públicas e estratégias de desenvolvimento local. Neste texto, articulam-se dados nacionais, análises territoriais e exemplos de diferentes contextos, de grandes centros urbanos a cidades do interior do Sudeste, bem como do Nordeste, e se exploram tanto os benefícios quanto os riscos associados à realização do evento.

Você sabia que...

  • O Carnaval tem origem em festas da Antiguidade, como a Saturnália romana, celebrações gregas da primavera e rituais da Babilônia, marcados pela inversão temporária da ordem social.
  • Com a expansão do cristianismo, a festa passou a anteceder a Quaresma. O termo “Carnaval” deriva do latim ‘carnis levare’, que significa “retirar a carne”.
  • O uso de máscaras e fantasias surgiu como forma de anonimato e liberdade social, especialmente no Carnaval de Veneza.
  • No Brasil, o Carnaval foi introduzido pelos portugueses por meio do Entrudo, prática que se misturou às expressões culturais e musicais trazidas por africanos escravizados.
  • Dessa fusão nasceram manifestações próprias, como marchinhas, samba, frevo e, mais tarde, os trios elétricos e os grandes blocos de rua.
  • Ao longo do século XX, o Carnaval se consolidou como expressão cultural popular e como evento urbano de grande escala, com impactos diretos sobre as cidades e sua gestão.

O impacto econômico do Carnaval

As projeções para o Carnaval de 2026 destacam a força do evento como um dos principais motores econômicos do calendário brasileiro. Estimativas divulgadas pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com base em dados do setor de serviços e turismo, indicam que a festa deve movimentar valores significativamente superiores aos registrados em 2025, consolidando uma trajetória de crescimento contínuo após a retomada plena das atividades presenciais e do turismo no país depois da pandemia.

De acordo com a CNC, a expectativa é que o Carnaval de 2026 ultrapasse a marca de R$ 14 bilhões em receitas, considerando gastos diretos e indiretos relacionados a turismo, alimentação, transporte, hospedagem, entretenimento e comércio. Esse crescimento está associado tanto ao aumento do número de foliões quanto à elevação do gasto médio por visitante, impulsionado pela maior demanda por serviços, experiências culturais e deslocamentos intermunicipais e interestaduais. Bares e restaurantes seguem liderando a geração de receita, concentrando a maior fatia do faturamento projetado, seguidos pelos setores de transporte de passageiros e hospedagem.

pessoas na rua com guarda sol amarelo e vendedores ambulantes durante festejo.

Comércio ambulante no carnaval de rua. Foto por: Rondônia Agora.

O impacto sobre o mercado de trabalho também tende a se ampliar. Projeções do setor indicam a criação de uma média de 40 mil empregos temporários em todo o país na edição deste ano, especialmente em atividades ligadas à cadeia do turismo e de eventos. Embora essas vagas sejam, em grande parte, de curta duração, elas representam uma importante fonte de renda para trabalhadores da cultura, do comércio e dos serviços, além de estimular a circulação de recursos em economias locais durante o primeiro trimestre do ano. Esse movimento reforça o papel do Carnaval como mecanismo de ativação econômica em um período tradicionalmente marcado por menor dinamismo em alguns setores.

Outro dado relevante para 2026 é a expectativa de ampliação do público participante. Informações consolidadas por secretarias estaduais de turismo e pelo Ministério do Turismo apontam que mais de 65 milhões de pessoas devem participar das festividades em todo o país, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Essa intensificação da circulação de pessoas tende a ampliar o efeito multiplicador do Carnaval sobre a economia, uma vez que os gastos associados ao evento se irradiam para diferentes cadeias produtivas e territórios.

Em conjunto, esses indicadores confirmam que o Carnaval de 2026 não deve ser apenas maior em escala, mas também mais relevante do ponto de vista econômico. Para os gestores públicos, esse cenário reforça a necessidade de tratar a festa como um ativo estratégico, capaz de gerar receita, emprego e visibilidade, desde que acompanhado por planejamento, infraestrutura adequada e políticas que garantam a distribuição mais equilibrada dos benefícios econômicos gerados.

A economia da folia em escala metropolitana

Os números projetados para 2026 refletem a profissionalização da gestão, a atração de investimentos privados e a transformação da cultura em produto turístico de alto valor agregado. A seguir, confira as expectativas de faturamento do carnaval deste ano nos principais polos carnavalescos, bem como em algumas cidades menores:

Rio de Janeiro: a vitrine do Brasil para o mundo (R$ 5,7 bilhões)

avenida Sapucaí apresentando desfile de escola de samba no carnaval do Rio de Janeiro com arquibancada a sua esquerda.

Desfile de escola de samba na Sapucaí. Foto por: Governo do Rio de Janeiro

A capital fluminense opera no patamar de um grande evento internacional. Com uma projeção de R$ 5,7 bilhões em movimentação e uma ocupação hoteleira batendo na casa dos 98%, o Carnaval carioca é um ecossistema completo. O dinheiro circula do ingresso do camarote corporativo no Sambódromo (que vira ferramenta de negócios para marcas) até o ambulante credenciado no circuito da Praça XV. A estimativa de 70 mil empregos temporários, que visa atender a pelo menos 8 milhões de turistas do Brasil e do exterior, mostra uma cadeia produtiva que abastece desde costureiras de fantasia até equipes de logística e segurança.

Recife e Olinda: o binômio criativo (R$ 3,5 bilhões)

menino com mini guarda-chuva e blusa com a bandeira de Pernambuco estampada em uma dança de frevo

Apresentação de frevo durante as festividades do Carnaval. Foto por: Prefeitura do Recife

O eixo pernambucano escreve seu capítulo econômico com base em dois pilares: a força da tradição e a ousadia da criação. Com uma expectativa de atrair cerca de 2,5 milhões de turistas em 2026 e movimentar R$ 3,5 bilhões, a força dessa região vai muito além dos números agregados; está na capilaridade democrática da sua economia criativa.

Enquanto Recife atrai multidões com a precisão coreográfica do frevo e uma infraestrutura urbana de grande evento, Olinda prova que a tradição é um produto de altíssimo valor. Seus bonecos gigantes, mais do que atrações folclóricas, são ícones de um patrimônio vivo que gera renda para uma cadeia inteira, desde o artista que os concebe e restaura até o guia turístico que conta sua história.

São Paulo: a capital dos negócios (R$ 3,4 bilhões)

pessoas amontoadas na rua de São Paulo celebrando o carnaval de rua.

Carnaval de rua em São Paulo. Foto por: Agência Brasil.

São Paulo talvez seja o caso mais interessante quanto ao aproveitamento de uma oportunidade. De cidade que esvaziava no feriado, tornou-se um destino carnavalesco por excelência. Em 2026, o município espera receber 16,5 milhões de foliões, um impacto de R$ 3,4 bilhões e gerar aproximadamente 50 mil empregos temporários. Sua fórmula? Infraestrutura urbana de ponta, segurança e uma oferta diversificada que vai do bloquinho de rua mais autêntico a camarotes que funcionam como salas de reunião corporativa. O Carnaval paulistano é eficiente, organizado e, acima de tudo, um grande negócio.

Salvador: a potência dos trios elétricos (R$ 2,6 bilhões)

homem negro com camisa do olodum batucando um tambor em cima do trio elétrico.

Passagem do trio elétrico do Olodum em Salvador. Foto por: Prefeitura de Salvador.

A capital baiana apostou na autenticidade e escala – e venceu! Com expectativa de atrair mais de 1,2 milhão de turistas e movimentar R$ 2,6 bilhões, Salvador domina o nicho do “Carnaval-experiência”. O turista brasileiro gasta em torno de R$ 7.131 durante os dias de folia, um ticket médio robusto, que aquece hotéis, restaurantes e, principalmente, a poderosa indústria criativa local. A festa é um palco para artistas regionais e um ímã para um turismo que busca imersão cultural, não apenas espetáculo.

Belo Horizonte: a ascensão do interior metropolitano (R$ 1 bilhão)

imagem área de grupo de pessoas celebrando o carnaval no centro de Belo Horizonte.

Carnaval de rua em Belo Horizonte. Foto por: Prefeitura de Belo Horizonte.

Belo Horizonte representa a nova fronteira econômica do Carnaval. Projetando movimentar mais de R$ 1 bilhão e receber 6,2 milhões de pessoas, a capital mineira prova que o eixo da folia não se restringe mais aos polos tradicionais. Com investimentos via Lei de Incentivo à Cultura (o Edital Carnaval da Liberdade injetou R$ 12 milhões), a cidade estruturou uma festa de qualidade que atrai turistas e retém seu próprio público, que antes migrava para outras praças. É a demonstração de que, com planejamento e investimento em cultura, cidades do interior podem se tornar polos atrativos.

A estratégia do interior: como cidades menores “pescam” na maré econômica

Enquanto os grandes polos nadam em bilhões, cidades menores desenvolveram estratégias inteligentes para garantir que a maré alta do Carnaval levante todos os barcos. O segredo não é competir em volume, mas em autenticidade, nicho e gestão competente.

Cidades como São Luiz do Paraitinga (SP) ou Paraty (RJ) não tentam replicar trios elétricos. Elas vendem o que têm de único: seu Carnaval tradicional. Marchinhas, blocos de rua com fantasias de época, festas em praças históricas atraem um turista específico – famílias, casais, estrangeiros – que busca uma experiência mais pé-no-chão, segura e culturalmente rica. A receita vem da hospedagem, da gastronomia local e do comércio de artesanato.

bonecos de papel machê no carnaval de Ouro Preto.

Carnaval de Ouro Preto. Foto por: Rádio Itatiaia.

Já Ouro Preto (MG) é o arquétipo do sucesso. Com um investimento municipal de R$ 1 milhão para receber 40 mil foliões, a cidade abraça sua dupla identidade: o Carnaval histórico-cultural, com desfiles de escolas de samba tradicionais; e o Carnaval universitário, que movimenta repúblicas e comércio local. A prefeitura atua como ordenadora e fomentadora, repassando R$ 490 mil diretamente para as agremiações. O resultado é uma festa que gera renda diversa, dos hotéis aos pequenos bares.

O outro lado da moeda: o desafio da resiliência urbana

A mesma engrenagem que movimenta bilhões de reais e projeta o Brasil para o mundo é a que tensiona os limites dos serviços públicos essenciais. Para os gestores, o Carnaval não se encerra na contabilidade das receitas; ele exige uma vigilância ativa sobre os pontos críticos que podem comprometer o bem-estar coletivo. Compreender o evento em sua totalidade implica olhar atentamente para os riscos sanitários, as demandas de saúde e os gargalos logísticos que surgem quando as cidades operam em sua capacidade máxima.

Os impactos na saúde pública

três paramédicos cuidando de uma mulher em uma unidade de saúde móvel.

Pit Stop da saúde no Carnaval do Recife. Foto por: Revista Negócios PE.

A concentração massiva de pessoas em um curto período de tempo representa, historicamente, um dos maiores desafios para a rede de saúde. O cenário típico inclui risco de superlotação em pronto-socorros devido a acidentes, traumas, intoxicações e o agravamento de doenças infecciosas. No entanto, a edição de 2025 mostrou que, com planejamento, é possível mitigar esse impacto. Dados da Secretaria da Saúde da Bahia revelaram uma redução de 12,6% nos atendimentos médicos nos circuitos oficiais, mesmo com o aumento do público, um indicativo de que ações preventivas e uma estrutura de atendimento pré-hospitalar bem distribuída podem evitar o colapso dos hospitais. 

Em São Paulo, a estratégia foi a de criar uma rede dedicada: a prefeitura mobilizou 960 profissionais de saúde e mais de 1.900 bombeiros civis especificamente para o Carnaval de rua, com monitoramento em tempo real, enquanto a rede municipal de urgência funcionava em regime de prontidão reforçada. O objetivo dessas operações é descomprimir a rede fixa, direcionando os casos mais leves para postos avançados e garantindo que os hospitais mantenham capacidade para emergências de alta complexidade.

Além da pressão imediata por atendimentos de urgência, o sistema de saúde enfrenta um desafio paralelo e igualmente crítico: a vigilância ativa para conter a rápida propagação de doenças, um risco amplificado pela escala das aglomerações. As edições recentes da festa oferecem alertas e lições valiosas sobre como mitigar esse perigo. Veja a seguir:

  • Doenças transmissíveis e riscos sanitários 

Em edições recentes, o período carnavalesco coincidiu com cenários epidemiológicos sensíveis em diferentes regiões do país. No verão de 2025, por exemplo, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) alertou para a alta taxa de positividade dos exames de dengue realizados em laboratórios privados, que chegou a 19,3% entre janeiro e início de fevereiro, o maior índice desde outubro de 2024. Na segunda semana epidemiológica de 2025, o pico chegou a 28,8%, indicando risco de surto ou início de epidemia.Outro efeito observado após grandes aglomerações foi o aumento de doenças respiratórias. Dados da Plataforma SP Covid-19 Info Tracker apontam que, após o Carnaval de 2025, os casos de Covid-19 saltaram de 6.354 para 11.467 em apenas uma semana, um crescimento de 80,4%. No mesmo período, os óbitos aumentaram 467,5%, além de serem registrados altas nos casos de Influenza A e Vírus Sincicial Respiratório (Grupo MedCof).

  • Prevenção de ISTs e atenção à saúde sexual nos grandes polos de Carnaval

A integração de ações de saúde sexual no planejamento estratégico do Carnaval transformou o evento em uma janela prioritária para a vigilância ativa. Em 2025, a articulação entre o Ministério da Saúde, estados e municípios resultou na distribuição de mais de 5 milhões de preservativos e na ampliação da oferta de testagem rápida em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Olinda (Ministério da Saúde).

    • Rio de Janeiro: A Secretaria Municipal de Saúde implementou postos fixos e móveis no Sambódromo e nos circuitos de blocos. O foco no diagnóstico precoce permitiu o encaminhamento imediato de casos de sífilis e HIV para a rede pública, mitigando riscos de transmissão (Fonte: G1 / SMS-RJ).
    • São Paulo: A estratégia descentralizada utilizou a rede de UBS e Centros de Testagem (CTAs) para intensificar a oferta de autotestes de HIV e insumos de prevenção. As campanhas foram segmentadas para públicos de maior vulnerabilidade, como jovens e a população LGBTQIA+, registrando volumes de atendimento superiores à média anual (Fonte: Prefeitura de São Paulo).
    • Bahia e Pernambuco: No Nordeste, a experiência de 2025 consolidou o início do tratamento ainda durante o período festivo. Somente na Bahia, foram realizados mais de 18 mil testes rápidos, com centenas de diagnósticos positivos que geraram acompanhamento imediato (Fonte: Sesab / Ministério da Saúde).

Essa estrutura demonstra que a saúde sexual migrou de uma ação pontual para um pilar de governança, convertendo aglomerações de risco em oportunidades de redução de desigualdades no acesso ao SUS.

Segurança pública

A segurança é o pilar mais visível do planejamento. Todas as principais cidades-sede reforçaram seus efetivos de forma significativa, com destaque para Salvador, que mobilizará um recorde de 37 mil profissionais entre policiais e bombeiros durante todo o período de festas, e São Paulo, com um reforço diário de 5,2 mil policiais militares na capital. A atuação é integrada, envolvendo Polícia Militar, Civil, Guarda Municipal, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil em salas de comando e controle unificadas.

policiais militares patrulhando um bloco de rua no carnaval de rua do Rio de Janeiro.

Patrulha em bloco de rua do Rio de Janeiro. Foto por: Polícia Militar do Rio de Janeiro.

A grande inovação, no entanto, está no uso estratégico e massivo de tecnologia de ponta. Drones para monitoramento aéreo, câmeras de videomonitoramento 360° com transmissão em tempo real e sistemas de reconhecimento facial tornaram-se recursos padrão nos principais polos, transformando a segurança pública em uma operação de inteligência. Em Recife e Olinda, por exemplo, o reconhecimento facial será novamente empregado para identificar criminosos procurados em áreas de grande fluxo – uma estratégia que, no ano passado, resultou na identificação e prisão de 140 pessoas nos principais circuitos do país

Além disso, uma rede de mais de 5 mil câmeras (sendo 2,5 mil só na capital) criará um cerco digital sobre os maiores focos de concentração do Carnaval de Salvador, enquanto no Rio de Janeiro, o Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio) coordenará a operação com mais de 500 câmeras fixas e drones, que monitorarão desde o Sambódromo e seus acessos até o deslocamento dos carros alegóricos, em uma estratégia de operação coesa que visa antecipar problemas e direcionar as equipes de segurança em tempo real.

As estratégias também incluem um forte viés de acolhimento e proteção a grupos vulneráveis. Delegacias e postos especializados no atendimento à mulher, ao turista e a crianças e adolescentes funcionarão nas áreas de festa. Ações como a distribuição de pulseiras de identificação infantil (em Olinda, Salvador e Rio) e a presença de cabines ou centrais dedicadas ao acolhimento de mulheres vítimas de violência (como a ‘Cabine Lilás’ em SP e a ‘Central da Mulher no Carnaval’ no Recife) demonstram uma preocupação com a segurança cidadã para além da repressão ao crime.

Logística e mobilidade

foliões vestidos de fantasia de carnaval vermelha na frente do ônibus do Expresso da Folia.

Expresso da Folia, no Recife. Foto por: Prefeitura do Recife.

A gestão do trânsito e do transporte público é crítica para o sucesso da operação. Os esquemas priorizam o transporte coletivo e impõem bloqueios viários extensivos e dinâmicos. Em Olinda, o acesso de veículos ao Sítio Histórico será controlado por 29 pontos de bloqueio fixos com manilhas de concreto e chips de identificação para moradores. O Rio de Janeiro planeja 81 pontos de bloqueio para os desfiles da Sapucaí, com interdições escalonadas que começam na madrugada anterior aos desfiles.

Para facilitar o acesso dos foliões, todas as cidades recorreram aos sistemas de transporte expresso ou especial. O Expresso Salvador ligará shoppings da cidade aos circuitos; o Expresso da Folia fará o mesmo no Recife e em Olinda; e em São Paulo, o metrô funcionará 24 horas durante os dias de pico. No Rio, o Veículo Leve Sobre Trilho (VLT) terá operação especial e o metrô também funcionará ininterruptamente.

Limpeza urbana

garis da cidade do Rio de Janeiro limpando a rua.

Limpeza urbana pela equipe da Comlurb. Foto por: Prefeitura do Rio de Janeiro.

As operações de limpeza são planejadas para atuar antes, durante e, principalmente, após os eventos, com o objetivo de liberar as vias rapidamente e mitigar o impacto ambiental. Para isso, as prefeituras montaram verdadeiras forças-tarefa com milhares de profissionais. São Paulo terá 3,9 mil agentes de limpeza e 585 veículos especializados, prometendo limpar as vias em até 40 minutos após a passagem dos blocos. O Rio mobilizará 1.943 garis por dia só para o Sambódromo e a Intendente Magalhães, utilizando caminhões-pipa com água de reuso para a lavagem final.

A sustentabilidade ganhou um capítulo estratégico próprio. Programas de coleta seletiva e logística reversa são amplamente adotados. Recife terá uma Central de Reciclagem 24h e um ‘Bloco da Reciclagem’ no Galo da Madrugada. Olinda implementou o Programa Carnaval Sustentável, com eixos que vão da coleta seletiva de latinhas e óleo de cozinha à formalização e capacitação de ambulantes, transformando-os em ‘empreendedores do Carnaval’. A cidade ainda criou um polo de acolhimento para catadores de materiais recicláveis, oferecendo alimentação e descanso.

O Carnaval como política de desenvolvimento

Mais do que movimentar bilhões e atrair multidões, o Carnaval expressa seu maior potencial na capacidade de transformar cultura em desenvolvimento. Quando pensado de forma estratégica, deixa de ser apenas um grande evento a ser gerenciado e passa a atuar como uma política pública, capaz de gerar renda, promover inclusão social, fortalecer identidades culturais e construir legados duradouros para os territórios.

No centro dessa engrenagem está a economia criativa como vetor de desenvolvimento e cidadania. Em Pernambuco, o Carnaval é tratado como o ápice de um ecossistema cultural ativo ao longo de todo o ano. A linha de crédito CredFolia, da Agência de Empreendedorismo do Estado, oferece financiamentos entre R$ 3 mil e R$ 21 mil para artesãos, microempreendedores e grupos da economia solidária, fortalecendo a base produtiva que sustenta a festa. Em Olinda, a prefeitura cadastrou cerca de 1,4 mil empreendedores para atuar no Carnaval de 2025, priorizando moradores locais e pessoas em situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que organiza o comércio informal e amplia a segurança e a formalização das atividades econômicas.

Em Minas Gerais, o Edital Carnaval da Liberdade destinou, neste ano, R$ 12 milhões, via Lei de Incentivo à Cultura, consolidando uma política de Estado voltada à descentralização de recursos, à valorização dos artistas mineiros e ao fortalecimento das manifestações tradicionais, dos blocos de rua de Belo Horizonte aos cordões carnavalescos do interior. Na Bahia, o programa Carnaval Ouro Negro investiu R$ 15 milhões em 2024 exclusivamente em blocos afros, afoxés e entidades de matriz africana, enfrentando assimetrias históricas e fortalecendo grupos que constituem a base identitária e simbólica do Carnaval baiano.

Essas experiências evidenciam que o Carnaval deve ser compreendido como uma política pública estratégica, que demanda gestão integrada entre diferentes áreas do governo, como cultura, turismo, desenvolvimento econômico, segurança, saúde e assistência social, e articulação permanente com a sociedade civil, agentes culturais, comunidades locais e iniciativa privada. Quando estruturado dessa forma, o evento deixa de representar apenas um desafio operacional e passa a funcionar como um catalisador de desenvolvimento local, inovação na gestão pública e fortalecimento institucional.

Ao adotar uma visão de longo prazo, baseada em governança compartilhada e centralidade no cidadão, o Carnaval revela o potencial transformador das políticas públicas orientadas pela cultura. Mais do que assegurar a realização da festa, esse modelo de gestão contribui para cidades mais organizadas, inclusivas e economicamente dinâmicas, preparadas para receber grandes fluxos de pessoas durante o período e para gerar valor social, cultural e econômico muito além dele.

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