Falar sobre o Carnaval é, antes de tudo, falar sobre o Brasil. Poucos fenômenos expressam de forma tão clara a combinação entre cultura popular, economia, identidade territorial e ação do poder público. Embora frequentemente associado apenas à celebração, à música e à ocupação festiva das ruas, o Carnaval é um evento de grande escala que mobiliza cadeias produtivas inteiras, pressiona serviços públicos, ativa o turismo e exige planejamento, coordenação e decisões estratégicas por parte dos gestores públicos.
Em um país marcado por desigualdades regionais e desafios estruturais, o Carnaval também revela contrastes: enquanto em grandes capitais as festividades carnavalescas movimentam bilhões de reais e atraem visitantes do mundo inteiro, em cidades médias e pequenas, o evento pode representar a principal fonte de renda do ano para microempreendedores, trabalhadores informais, artistas e comerciantes locais. Ao mesmo tempo, a concentração de pessoas em curto espaço de tempo impõe grandes desafios à saúde pública, à segurança, à mobilidade urbana e à governança intersetorial.
Mais do que uma festa, o Carnaval é um fenômeno econômico, social e urbano, com impactos que se desdobram sobre políticas públicas e estratégias de desenvolvimento local. Neste texto, articulam-se dados nacionais, análises territoriais e exemplos de diferentes contextos, de grandes centros urbanos a cidades do interior do Sudeste, bem como do Nordeste, e se exploram tanto os benefícios quanto os riscos associados à realização do evento.
O impacto econômico do Carnaval
As projeções para o Carnaval de 2026 destacam a força do evento como um dos principais motores econômicos do calendário brasileiro. Estimativas divulgadas pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com base em dados do setor de serviços e turismo, indicam que a festa deve movimentar valores significativamente superiores aos registrados em 2025, consolidando uma trajetória de crescimento contínuo após a retomada plena das atividades presenciais e do turismo no país depois da pandemia.
De acordo com a CNC, a expectativa é que o Carnaval de 2026 ultrapasse a marca de R$ 14 bilhões em receitas, considerando gastos diretos e indiretos relacionados a turismo, alimentação, transporte, hospedagem, entretenimento e comércio. Esse crescimento está associado tanto ao aumento do número de foliões quanto à elevação do gasto médio por visitante, impulsionado pela maior demanda por serviços, experiências culturais e deslocamentos intermunicipais e interestaduais. Bares e restaurantes seguem liderando a geração de receita, concentrando a maior fatia do faturamento projetado, seguidos pelos setores de transporte de passageiros e hospedagem.

Comércio ambulante no carnaval de rua. Foto por: Rondônia Agora.
O impacto sobre o mercado de trabalho também tende a se ampliar. Projeções do setor indicam a criação de uma média de 40 mil empregos temporários em todo o país na edição deste ano, especialmente em atividades ligadas à cadeia do turismo e de eventos. Embora essas vagas sejam, em grande parte, de curta duração, elas representam uma importante fonte de renda para trabalhadores da cultura, do comércio e dos serviços, além de estimular a circulação de recursos em economias locais durante o primeiro trimestre do ano. Esse movimento reforça o papel do Carnaval como mecanismo de ativação econômica em um período tradicionalmente marcado por menor dinamismo em alguns setores.
Outro dado relevante para 2026 é a expectativa de ampliação do público participante. Informações consolidadas por secretarias estaduais de turismo e pelo Ministério do Turismo apontam que mais de 65 milhões de pessoas devem participar das festividades em todo o país, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. Essa intensificação da circulação de pessoas tende a ampliar o efeito multiplicador do Carnaval sobre a economia, uma vez que os gastos associados ao evento se irradiam para diferentes cadeias produtivas e territórios.
Em conjunto, esses indicadores confirmam que o Carnaval de 2026 não deve ser apenas maior em escala, mas também mais relevante do ponto de vista econômico. Para os gestores públicos, esse cenário reforça a necessidade de tratar a festa como um ativo estratégico, capaz de gerar receita, emprego e visibilidade, desde que acompanhado por planejamento, infraestrutura adequada e políticas que garantam a distribuição mais equilibrada dos benefícios econômicos gerados.
A economia da folia em escala metropolitana
Os números projetados para 2026 refletem a profissionalização da gestão, a atração de investimentos privados e a transformação da cultura em produto turístico de alto valor agregado. A seguir, confira as expectativas de faturamento do carnaval deste ano nos principais polos carnavalescos, bem como em algumas cidades menores:
Rio de Janeiro: a vitrine do Brasil para o mundo (R$ 5,7 bilhões)

Desfile de escola de samba na Sapucaí. Foto por: Governo do Rio de Janeiro
A capital fluminense opera no patamar de um grande evento internacional. Com uma projeção de R$ 5,7 bilhões em movimentação e uma ocupação hoteleira batendo na casa dos 98%, o Carnaval carioca é um ecossistema completo. O dinheiro circula do ingresso do camarote corporativo no Sambódromo (que vira ferramenta de negócios para marcas) até o ambulante credenciado no circuito da Praça XV. A estimativa de 70 mil empregos temporários, que visa atender a pelo menos 8 milhões de turistas do Brasil e do exterior, mostra uma cadeia produtiva que abastece desde costureiras de fantasia até equipes de logística e segurança.
Recife e Olinda: o binômio criativo (R$ 3,5 bilhões)

Apresentação de frevo durante as festividades do Carnaval. Foto por: Prefeitura do Recife
O eixo pernambucano escreve seu capítulo econômico com base em dois pilares: a força da tradição e a ousadia da criação. Com uma expectativa de atrair cerca de 2,5 milhões de turistas em 2026 e movimentar R$ 3,5 bilhões, a força dessa região vai muito além dos números agregados; está na capilaridade democrática da sua economia criativa.
Enquanto Recife atrai multidões com a precisão coreográfica do frevo e uma infraestrutura urbana de grande evento, Olinda prova que a tradição é um produto de altíssimo valor. Seus bonecos gigantes, mais do que atrações folclóricas, são ícones de um patrimônio vivo que gera renda para uma cadeia inteira, desde o artista que os concebe e restaura até o guia turístico que conta sua história.
São Paulo: a capital dos negócios (R$ 3,4 bilhões)

Carnaval de rua em São Paulo. Foto por: Agência Brasil.
São Paulo talvez seja o caso mais interessante quanto ao aproveitamento de uma oportunidade. De cidade que esvaziava no feriado, tornou-se um destino carnavalesco por excelência. Em 2026, o município espera receber 16,5 milhões de foliões, um impacto de R$ 3,4 bilhões e gerar aproximadamente 50 mil empregos temporários. Sua fórmula? Infraestrutura urbana de ponta, segurança e uma oferta diversificada que vai do bloquinho de rua mais autêntico a camarotes que funcionam como salas de reunião corporativa. O Carnaval paulistano é eficiente, organizado e, acima de tudo, um grande negócio.
Salvador: a potência dos trios elétricos (R$ 2,6 bilhões)

Passagem do trio elétrico do Olodum em Salvador. Foto por: Prefeitura de Salvador.
A capital baiana apostou na autenticidade e escala – e venceu! Com expectativa de atrair mais de 1,2 milhão de turistas e movimentar R$ 2,6 bilhões, Salvador domina o nicho do “Carnaval-experiência”. O turista brasileiro gasta em torno de R$ 7.131 durante os dias de folia, um ticket médio robusto, que aquece hotéis, restaurantes e, principalmente, a poderosa indústria criativa local. A festa é um palco para artistas regionais e um ímã para um turismo que busca imersão cultural, não apenas espetáculo.
Belo Horizonte: a ascensão do interior metropolitano (R$ 1 bilhão)

Carnaval de rua em Belo Horizonte. Foto por: Prefeitura de Belo Horizonte.
Belo Horizonte representa a nova fronteira econômica do Carnaval. Projetando movimentar mais de R$ 1 bilhão e receber 6,2 milhões de pessoas, a capital mineira prova que o eixo da folia não se restringe mais aos polos tradicionais. Com investimentos via Lei de Incentivo à Cultura (o Edital Carnaval da Liberdade injetou R$ 12 milhões), a cidade estruturou uma festa de qualidade que atrai turistas e retém seu próprio público, que antes migrava para outras praças. É a demonstração de que, com planejamento e investimento em cultura, cidades do interior podem se tornar polos atrativos.
A estratégia do interior: como cidades menores “pescam” na maré econômica
Enquanto os grandes polos nadam em bilhões, cidades menores desenvolveram estratégias inteligentes para garantir que a maré alta do Carnaval levante todos os barcos. O segredo não é competir em volume, mas em autenticidade, nicho e gestão competente.
Cidades como São Luiz do Paraitinga (SP) ou Paraty (RJ) não tentam replicar trios elétricos. Elas vendem o que têm de único: seu Carnaval tradicional. Marchinhas, blocos de rua com fantasias de época, festas em praças históricas atraem um turista específico – famílias, casais, estrangeiros – que busca uma experiência mais pé-no-chão, segura e culturalmente rica. A receita vem da hospedagem, da gastronomia local e do comércio de artesanato.

Carnaval de Ouro Preto. Foto por: Rádio Itatiaia.
Já Ouro Preto (MG) é o arquétipo do sucesso. Com um investimento municipal de R$ 1 milhão para receber 40 mil foliões, a cidade abraça sua dupla identidade: o Carnaval histórico-cultural, com desfiles de escolas de samba tradicionais; e o Carnaval universitário, que movimenta repúblicas e comércio local. A prefeitura atua como ordenadora e fomentadora, repassando R$ 490 mil diretamente para as agremiações. O resultado é uma festa que gera renda diversa, dos hotéis aos pequenos bares.
O outro lado da moeda: o desafio da resiliência urbana
A mesma engrenagem que movimenta bilhões de reais e projeta o Brasil para o mundo é a que tensiona os limites dos serviços públicos essenciais. Para os gestores, o Carnaval não se encerra na contabilidade das receitas; ele exige uma vigilância ativa sobre os pontos críticos que podem comprometer o bem-estar coletivo. Compreender o evento em sua totalidade implica olhar atentamente para os riscos sanitários, as demandas de saúde e os gargalos logísticos que surgem quando as cidades operam em sua capacidade máxima.
Os impactos na saúde pública

Pit Stop da saúde no Carnaval do Recife. Foto por: Revista Negócios PE.
A concentração massiva de pessoas em um curto período de tempo representa, historicamente, um dos maiores desafios para a rede de saúde. O cenário típico inclui risco de superlotação em pronto-socorros devido a acidentes, traumas, intoxicações e o agravamento de doenças infecciosas. No entanto, a edição de 2025 mostrou que, com planejamento, é possível mitigar esse impacto. Dados da Secretaria da Saúde da Bahia revelaram uma redução de 12,6% nos atendimentos médicos nos circuitos oficiais, mesmo com o aumento do público, um indicativo de que ações preventivas e uma estrutura de atendimento pré-hospitalar bem distribuída podem evitar o colapso dos hospitais.
Em São Paulo, a estratégia foi a de criar uma rede dedicada: a prefeitura mobilizou 960 profissionais de saúde e mais de 1.900 bombeiros civis especificamente para o Carnaval de rua, com monitoramento em tempo real, enquanto a rede municipal de urgência funcionava em regime de prontidão reforçada. O objetivo dessas operações é descomprimir a rede fixa, direcionando os casos mais leves para postos avançados e garantindo que os hospitais mantenham capacidade para emergências de alta complexidade.
Além da pressão imediata por atendimentos de urgência, o sistema de saúde enfrenta um desafio paralelo e igualmente crítico: a vigilância ativa para conter a rápida propagação de doenças, um risco amplificado pela escala das aglomerações. As edições recentes da festa oferecem alertas e lições valiosas sobre como mitigar esse perigo. Veja a seguir:
- Doenças transmissíveis e riscos sanitários
Em edições recentes, o período carnavalesco coincidiu com cenários epidemiológicos sensíveis em diferentes regiões do país. No verão de 2025, por exemplo, a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) alertou para a alta taxa de positividade dos exames de dengue realizados em laboratórios privados, que chegou a 19,3% entre janeiro e início de fevereiro, o maior índice desde outubro de 2024. Na segunda semana epidemiológica de 2025, o pico chegou a 28,8%, indicando risco de surto ou início de epidemia.Outro efeito observado após grandes aglomerações foi o aumento de doenças respiratórias. Dados da Plataforma SP Covid-19 Info Tracker apontam que, após o Carnaval de 2025, os casos de Covid-19 saltaram de 6.354 para 11.467 em apenas uma semana, um crescimento de 80,4%. No mesmo período, os óbitos aumentaram 467,5%, além de serem registrados altas nos casos de Influenza A e Vírus Sincicial Respiratório (Grupo MedCof).
- Prevenção de ISTs e atenção à saúde sexual nos grandes polos de Carnaval
A integração de ações de saúde sexual no planejamento estratégico do Carnaval transformou o evento em uma janela prioritária para a vigilância ativa. Em 2025, a articulação entre o Ministério da Saúde, estados e municípios resultou na distribuição de mais de 5 milhões de preservativos e na ampliação da oferta de testagem rápida em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Olinda (Ministério da Saúde).
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- Rio de Janeiro: A Secretaria Municipal de Saúde implementou postos fixos e móveis no Sambódromo e nos circuitos de blocos. O foco no diagnóstico precoce permitiu o encaminhamento imediato de casos de sífilis e HIV para a rede pública, mitigando riscos de transmissão (Fonte: G1 / SMS-RJ).
- São Paulo: A estratégia descentralizada utilizou a rede de UBS e Centros de Testagem (CTAs) para intensificar a oferta de autotestes de HIV e insumos de prevenção. As campanhas foram segmentadas para públicos de maior vulnerabilidade, como jovens e a população LGBTQIA+, registrando volumes de atendimento superiores à média anual (Fonte: Prefeitura de São Paulo).
- Bahia e Pernambuco: No Nordeste, a experiência de 2025 consolidou o início do tratamento ainda durante o período festivo. Somente na Bahia, foram realizados mais de 18 mil testes rápidos, com centenas de diagnósticos positivos que geraram acompanhamento imediato (Fonte: Sesab / Ministério da Saúde).
Essa estrutura demonstra que a saúde sexual migrou de uma ação pontual para um pilar de governança, convertendo aglomerações de risco em oportunidades de redução de desigualdades no acesso ao SUS.
Segurança pública
A segurança é o pilar mais visível do planejamento. Todas as principais cidades-sede reforçaram seus efetivos de forma significativa, com destaque para Salvador, que mobilizará um recorde de 37 mil profissionais entre policiais e bombeiros durante todo o período de festas, e São Paulo, com um reforço diário de 5,2 mil policiais militares na capital. A atuação é integrada, envolvendo Polícia Militar, Civil, Guarda Municipal, Corpo de Bombeiros e Defesa Civil em salas de comando e controle unificadas.

Patrulha em bloco de rua do Rio de Janeiro. Foto por: Polícia Militar do Rio de Janeiro.
A grande inovação, no entanto, está no uso estratégico e massivo de tecnologia de ponta. Drones para monitoramento aéreo, câmeras de videomonitoramento 360° com transmissão em tempo real e sistemas de reconhecimento facial tornaram-se recursos padrão nos principais polos, transformando a segurança pública em uma operação de inteligência. Em Recife e Olinda, por exemplo, o reconhecimento facial será novamente empregado para identificar criminosos procurados em áreas de grande fluxo – uma estratégia que, no ano passado, resultou na identificação e prisão de 140 pessoas nos principais circuitos do país.
Além disso, uma rede de mais de 5 mil câmeras (sendo 2,5 mil só na capital) criará um cerco digital sobre os maiores focos de concentração do Carnaval de Salvador, enquanto no Rio de Janeiro, o Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio) coordenará a operação com mais de 500 câmeras fixas e drones, que monitorarão desde o Sambódromo e seus acessos até o deslocamento dos carros alegóricos, em uma estratégia de operação coesa que visa antecipar problemas e direcionar as equipes de segurança em tempo real.
As estratégias também incluem um forte viés de acolhimento e proteção a grupos vulneráveis. Delegacias e postos especializados no atendimento à mulher, ao turista e a crianças e adolescentes funcionarão nas áreas de festa. Ações como a distribuição de pulseiras de identificação infantil (em Olinda, Salvador e Rio) e a presença de cabines ou centrais dedicadas ao acolhimento de mulheres vítimas de violência (como a ‘Cabine Lilás’ em SP e a ‘Central da Mulher no Carnaval’ no Recife) demonstram uma preocupação com a segurança cidadã para além da repressão ao crime.
Logística e mobilidade

Expresso da Folia, no Recife. Foto por: Prefeitura do Recife.
A gestão do trânsito e do transporte público é crítica para o sucesso da operação. Os esquemas priorizam o transporte coletivo e impõem bloqueios viários extensivos e dinâmicos. Em Olinda, o acesso de veículos ao Sítio Histórico será controlado por 29 pontos de bloqueio fixos com manilhas de concreto e chips de identificação para moradores. O Rio de Janeiro planeja 81 pontos de bloqueio para os desfiles da Sapucaí, com interdições escalonadas que começam na madrugada anterior aos desfiles.
Para facilitar o acesso dos foliões, todas as cidades recorreram aos sistemas de transporte expresso ou especial. O Expresso Salvador ligará shoppings da cidade aos circuitos; o Expresso da Folia fará o mesmo no Recife e em Olinda; e em São Paulo, o metrô funcionará 24 horas durante os dias de pico. No Rio, o Veículo Leve Sobre Trilho (VLT) terá operação especial e o metrô também funcionará ininterruptamente.
Limpeza urbana

Limpeza urbana pela equipe da Comlurb. Foto por: Prefeitura do Rio de Janeiro.
As operações de limpeza são planejadas para atuar antes, durante e, principalmente, após os eventos, com o objetivo de liberar as vias rapidamente e mitigar o impacto ambiental. Para isso, as prefeituras montaram verdadeiras forças-tarefa com milhares de profissionais. São Paulo terá 3,9 mil agentes de limpeza e 585 veículos especializados, prometendo limpar as vias em até 40 minutos após a passagem dos blocos. O Rio mobilizará 1.943 garis por dia só para o Sambódromo e a Intendente Magalhães, utilizando caminhões-pipa com água de reuso para a lavagem final.
A sustentabilidade ganhou um capítulo estratégico próprio. Programas de coleta seletiva e logística reversa são amplamente adotados. Recife terá uma Central de Reciclagem 24h e um ‘Bloco da Reciclagem’ no Galo da Madrugada. Olinda implementou o Programa Carnaval Sustentável, com eixos que vão da coleta seletiva de latinhas e óleo de cozinha à formalização e capacitação de ambulantes, transformando-os em ‘empreendedores do Carnaval’. A cidade ainda criou um polo de acolhimento para catadores de materiais recicláveis, oferecendo alimentação e descanso.
O Carnaval como política de desenvolvimento
Mais do que movimentar bilhões e atrair multidões, o Carnaval expressa seu maior potencial na capacidade de transformar cultura em desenvolvimento. Quando pensado de forma estratégica, deixa de ser apenas um grande evento a ser gerenciado e passa a atuar como uma política pública, capaz de gerar renda, promover inclusão social, fortalecer identidades culturais e construir legados duradouros para os territórios.
No centro dessa engrenagem está a economia criativa como vetor de desenvolvimento e cidadania. Em Pernambuco, o Carnaval é tratado como o ápice de um ecossistema cultural ativo ao longo de todo o ano. A linha de crédito CredFolia, da Agência de Empreendedorismo do Estado, oferece financiamentos entre R$ 3 mil e R$ 21 mil para artesãos, microempreendedores e grupos da economia solidária, fortalecendo a base produtiva que sustenta a festa. Em Olinda, a prefeitura cadastrou cerca de 1,4 mil empreendedores para atuar no Carnaval de 2025, priorizando moradores locais e pessoas em situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo em que organiza o comércio informal e amplia a segurança e a formalização das atividades econômicas.
Em Minas Gerais, o Edital Carnaval da Liberdade destinou, neste ano, R$ 12 milhões, via Lei de Incentivo à Cultura, consolidando uma política de Estado voltada à descentralização de recursos, à valorização dos artistas mineiros e ao fortalecimento das manifestações tradicionais, dos blocos de rua de Belo Horizonte aos cordões carnavalescos do interior. Na Bahia, o programa Carnaval Ouro Negro investiu R$ 15 milhões em 2024 exclusivamente em blocos afros, afoxés e entidades de matriz africana, enfrentando assimetrias históricas e fortalecendo grupos que constituem a base identitária e simbólica do Carnaval baiano.
Essas experiências evidenciam que o Carnaval deve ser compreendido como uma política pública estratégica, que demanda gestão integrada entre diferentes áreas do governo, como cultura, turismo, desenvolvimento econômico, segurança, saúde e assistência social, e articulação permanente com a sociedade civil, agentes culturais, comunidades locais e iniciativa privada. Quando estruturado dessa forma, o evento deixa de representar apenas um desafio operacional e passa a funcionar como um catalisador de desenvolvimento local, inovação na gestão pública e fortalecimento institucional.
Ao adotar uma visão de longo prazo, baseada em governança compartilhada e centralidade no cidadão, o Carnaval revela o potencial transformador das políticas públicas orientadas pela cultura. Mais do que assegurar a realização da festa, esse modelo de gestão contribui para cidades mais organizadas, inclusivas e economicamente dinâmicas, preparadas para receber grandes fluxos de pessoas durante o período e para gerar valor social, cultural e econômico muito além dele.
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