Um momento de autorreflexão sobre a diversidade na política


Foto: Amy Elting on Unsplash

Em um ano que antecede as Eleições, devemos realizar uma autorreflexão e analisar a composição de nossas instituições.

 

Ainda que haja um longo caminho a ser percorrido, o setor privado já começou a compreender que a diversidade no ambiente corporativo pode gerar mais produtividade, inovação, e por conseguinte, lucros para as empresas. Contudo, quando olhamos para o setor público, percebemos que este se depara com um caminho ainda mais longo.

 

Em um momento de polarização na política brasileira, sobretudo em um ano que antecede as Eleições, é comum que as principais discussões contemplem os cargos do Executivo. Entretanto, devemos ter em mente que é o Legislativo o principal poder a refletir a multiplicidade de nossa nação.

 

Hoje, o Brasil é composto por 56% de negros e quase 52% de mulheres. Porém, de acordo com dados do IBGE, apenas 24,4% dos Deputados Federais eleitos em 2018 eram negros ou pardos.

 

 O total de mulheres eleitas para o Congresso não passou de 18%. Em relação à população LGBTQI+, os números da baixa representatividade são ainda mais evidentes: apenas 8 de 1.655 candidatos para cargos do Executivo e Legislativo se identificaram como pertencentes a esse grupo, o que aponta para uma falta de pluralidade entre os principais cargos públicos do país.

 

Nos Estados Unidos, menos de 14% da população se auto identifica como negra ou parda. Todavia, na Câmara dos Representantes do país, o número de mandatários negros ou pardos é de 13%, ou seja, muito próximo do percentual total norte-americano.

 

Na Suécia, onde as mulheres são 50% da população, parlamentares do sexo feminino ocupam 47% dos assentos no país. Engana-se quem acredita que esses números são peculiares a países desenvolvidos. Na África do Sul, país que conta com 51% de mulheres, 46,3% dos parlamentares sul-africanos são mulheres.

 

A diversidade entre os membros do Congresso favorece a elaboração de leis focadas em grupos específicos da população, que historicamente têm sido marginalizados. Certa vez, me deparei com um comentário nas redes sociais que afirmava: “Democracia não é a vontade da maioria?”.

 

Até certo ponto sim, porém, a maioria não deve ignorar as necessidades específicas de grupos minoritários. No Brasil, tem-se tentado inserir as mulheres na política por meio de cotas eleitorais.

 

De acordo com um ranking da União Interparlamentar (IPU), após as Eleições de 2018 o Brasil ocupou o 133º lugar em uma lista de 193 países, em relação à participação feminina no Congresso. Isso mostra que a medida não tem alcançado os resultados esperados. O que vimos foi o surgimento de candidatas-laranjas ou fantasmas, o que sinaliza fracasso deste tipo de modelo.

 

O atual momento, que antecede as Eleições de 2022, pede que a gente reflita sobre como poderíamos fomentar maior representatividade em nosso corpo político. Além de trazer as perspectivas de grupos minoritários (e que paradoxalmente e eventualmente fazem parte de uma maioria), mudanças estruturais em nossa sociedade demandam tempo, logo, os resultados das atitudes que tomarmos agora somente poderão ser mensurados dentro de alguns anos.

 

Precisamos de políticas plurais que abordem as necessidades específicas de minorias. A política de cotas não tem demonstrado ser o suficiente para alcançar os resultados esperados. Precisamos discutir soluções inovadoras que estimulem o interesse de minorias em entrar na vida pública. Talvez assim, teremos um Legislativo que verdadeiramente reflete a pluralidade do nosso país.

 

 

 

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O presente artigo foi originalmente escrito pela diretora-presidente da Comunitas, Regina Esteves, e publicado no site da revista Exame no dia 14/07/2021.