As discussões sobre o combate ao crime organizado e os mecanismos usados para mitigar o impacto de atividades ilícitas na vida das pessoas têm sido cada vez mais frequentes, com o tema da segurança pública sendo um dos que mais interessa à sociedade brasileira.
De acordo com pesquisa da Ipsos publicada em 2025, crime, violência e corrupção (política ou financeira) estão entre as principais preocupações dos brasileiros. O estudo aponta que 40% da população considera o crime e a violência como os maiores problemas do país. Essa percepção se agrava pelo fato de que cerca de 24% dos brasileiros vivem hoje em áreas dominadas por facções criminosas.
É fundamental que a gestão pública esteja preparada para lidar com esses desafios, aprendendo a combater o crime organizado e os mecanismos utilizados por essas organizações para agir nas brechas entre a legalidade e a ilegalidade.
Neste texto, vamos discutir um pouco mais sobre a chamada engenharia financeira do crime organizado, um modus operandi das organizações criminosas. Além de entendermos como a gestão pública pode agir para combater esse tipo de prática.
Mecanismos financeiros do crime organizado
As organizações criminosas buscam, constantemente, formas de “limpar” suas atividades ilícitas para que possam continuar operando sem serem interceptadas por órgãos fiscalizadores. Na prática, essa atividade ficou conhecida como a engenharia financeira do crime organizado. Ou seja, as técnicas e estratégias usadas por esses grupos para gerar, movimentar, ocultar, integrar e expandir recursos ilícitos na economia formal.
Nas brechas da legalidade
Ao se infiltrar em atividades lícitas, as organizações criminosas conseguem dificultar a ação de órgãos legais, além de conseguirem camuflar os atos ilícitos cometidos. Segundo o estudo “Lavagem de dinheiro e enfrentamento ao crime organizado no Brasil: reflexões sobre o Coaf em perspectiva comparada”, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2025):
Essa infiltração do crime organizado em estruturas empresariais legais amplia seu poder e influência e facilita a lavagem de dinheiro oriundo de atividades ilícitas, configurando um novo padrão de atuação destes grupos
Isso se dá a partir de diferentes mecanismos como lavagem de dinheiro, uso de laranjas, fintechs e criptomoedas. Cada um deles funciona de uma forma específica, mas todos têm um objetivo comum: ampliar as possibilidades de ação das redes ilícitas, mascarando as ilegalidades cometidas.
No caso brasileiro, as principais técnicas adotadas por redes criminosas incluem movimentações internacionais: transferências informais, participação de doleiros, criação de empresas de fachada e exploração de brechas em áreas reguladas.
Apesar de estarem relacionadas, a engenharia financeira e a arquitetura financeira do crime organizado não são a mesma coisa. A engenharia financeira representa o como — o passo a passo das ações ilícitas. Já a arquitetura financeira corresponde à estrutura criada para transformar o ilícito em lícito, dando aparência de legalidade aos recursos obtidos pelos criminosos.Glossário da segurança pública!
Lavagem de dinheiro: o principal mecanismo
Um dos principais métodos utilizados por grupos criminosos para camuflar suas ações é a lavagem de dinheiro. A lavagem de dinheiro acontece quando um aporte financeiro adquirido de forma ilícita é inserido na economia formal, para que seja “limpo” e possa ser usado com menos riscos para as organizações criminosas.
Entenda abaixo como cada uma das etapas desse processo ilícito acontece com frequência na economia do crime.
- Primeiro passo – Colocação
- Acontece quando os recursos financeiros ilícitos são colocados no sistema financeiro. Isso pode se dar de diferentes maneiras, como depósitos em contas correntes; compra de produtos e serviços financeiros, como títulos de capitalização, previdência privada e seguros; aplicações em depósito a prazo, poupança e fundos de investimento; compra de bens, como imóveis, ouro, pedras preciosas, obras de arte.
- Segundo passo – Ocultação
- Acontece na tentativa de ocultar a origem ilícita dos recursos, dificultando a ação de órgãos de fiscalização e investigação. Para isso, são feitas, por exemplo, transferências de recursos entre contas correntes, por meio eletrônico; transferência de recursos entre empresas; operações através de “contas fantasma” (conta em nome de pessoas que não existem) e de “laranjas” (pessoas que emprestam o nome para a realização de operações); transferência de recursos para paraísos fiscais.
- Terceiro passo- Integração
- Acontece quando os recursos ilícitos são formalmente integrados no sistema financeiro legal a partir de investimentos ou compra de ativos, por exemplo. Isso pode acontecer a partir de investimentos em negócios lícitos, nos diversos setores da economia.
Assim, ao fim desses três passos, o dinheiro “sujo” fica com aparência de “limpo” e isso faz com que as investigações dos órgãos competentes sejam mais difíceis.
Cenário nacional
Em agosto de 2025 um grande escândalo de lavagem de dinheiro tomou as manchetes dos principais jornais do país, mostrando como o PCC havia se infiltrado na Faria Lima – uma área nobre de negócios, na cidade de São Paulo – para lavar dinheiro e camuflar outras atividades ilícitas.
Esse caso é apenas um exemplo de como o crime organizado tem se articulado de forma cada vez mais complexa em território nacional, fazendo uso de brechas legais e mecanismos financeiros cada vez mais complexos.
No Brasil, há uma multiplicidade de fatores que dificultam o combate à lavagem de dinheiro e a prevenção desse tipo de ato ilícito. Apesar disso, órgãos competentes, como o Conselho de Controle de Atividades Financeira (COAF), têm trabalhado para aperfeiçoar mecanismos.
Por se tratar de um país com dimensões continentais, com grandes diferenças sociais, econômicas e financeiras, o Brasil se torna um mercado atrativo para esse tipo de atividade ilícita por conta de sua economia robusta e suas fronteiras extensas. Além de ser um ambiente propício para diferentes tipos de atividades ilícitas, por exemplo, o crime organizado tem em seu leque de atividades o tráfico de armas, madeira e narcóticos.
Quer entender mais sobre a economia do crime? Acesse o texto da Rede Juntos para aprender sobre os diferentes mercados das organizações criminosas!
O estudo “Siga o dinheiro: conectando sistemas de proteção contra a lavagem de dinheiro para combater a prática de crime ambiental na Amazônia”, produzido pelo Instituto Igarapé em 2023, aponta que, em geral, as redes criminosas enxergam os crimes ambientais como atividades de baixo risco e alto retorno e, por isso, buscam lavar os recursos provenientes dessas práticas.
A digitalização do sistema financeiro no cenário nacional tem criado novos desafios para a prevenção e o rastreio desses crimes. Segundo o relatório feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há três novas formas que se destacam nessa lógica, são eles:
- BETs – Casas de aposta online;
- Fintechs – Empresas que combinam finanças e tecnologias;
- Criptoativos – Ativos digitais protegidos por criptografia.
Por outro lado, o país tem também mecanismos de combate a estes tipos de atividade, que têm sido fortalecidos nos últimos anos. Segundo dados oficiais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de operações suspeitas comunicadas ao COAF aumentou 766,6% em nove anos.
Continue a leitura para entender como os governos podem se fortalecer contra estes desafios!
Estratégias para combater
Chegou a hora de entender como os governos podem se preparar para lidar com os cenários causados por grupos criminosos e suas atividades ilícitas.
A primeira estratégia é investir em integração. É preciso garantir que os órgãos de fiscalização, como o COAF, consigam trabalhar em conjunto, por exemplo, com as polícias e os especialistas da área de inteligência. A partir do compartilhamento de informações, os órgãos competentes têm mais chance de sucesso e de conseguirem desestabilizar o crime organizado e suas organizações internas.
É preciso que o poder público faça uma auditoria permanente de setores vulneráveis, como o setor de combustíveis, a indústria do tabaco e até mesmo as obras públicas. Normalmente, esses setores são mais utilizados por organizações criminosas e, por isso, devem ser olhados com mais cuidado por parte da gestão pública.
Adicionalmente, ainda falando de políticas de controle, o rastreamento de cargas e combate ao mercado ilegal é uma forma de desestabilizar o poder financeiro desses coletivos. Sem ter acesso a essas mercadorias e aos mercados ilegais, a organização desses grupos fica menos estável, facilitando a ação dos órgãos fiscalizadores.
Outro ponto importante destacado por estudos que analisam o combate ao crime organizado é a necessidade de “seguir o dinheiro”, ou seja, rastrear as origens dos aportes financeiros. A análise desses dados, integrada com uso de Inteligências Artificiais e novos mecanismos tecnológicos, pode ajudar a descobrir a verdade sobre o dinheiro “sujo”.
Também é preciso mencionar a importância da quebra do poder econômico das organizações criminosas. Muito do poder e das possibilidades de ação desses grupos passam, necessariamente, pela viabilidade e pelo poder econômico que possuem.
Assim, é necessário que os governos locais, estaduais, nacionais e internacionais trabalhem cooperando para impedir o crescimento desses grupos, que agem nas sombras do que é legal e do que é ilegal, causando prejuízos econômicos, mas também colocando em risco a vida das pessoas.
E você, gestor? Já conhecia essa realidade? Quais ações a sua região tem adotado contra as organizações criminosas e seus poderes econômicos? Não deixe de compartilhar esse conteúdo para que ele chegue a ainda mais pessoas!
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Somos servidores, prefeitos, especialistas, acadêmicos. Somos pessoas comprometidas com o desenvolvimento dos governos brasileiros, dispostas a compartilhar conhecimento com alto potencial de transformação.
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