Por que Cidades? Por que Agora?

Foto: Robert BockUnsplash

Por Washington Bonfim¹

 

Infelizmente, os anos de 2020 e 2021 têm sido marcados pelo signo da morte. Ele vem se consolidando de diversos modos, pelas ameaças imediatas impostas pela Covid-19, pelo impacto crescente das desigualdades sociais e, em médio prazo, pela crise climática, que vai impondo a necessidade de mudanças urgentes em nosso modo de vida e de produção. Como diria o poeta, “o mar da história é agitado. As ameaças e as guerras, havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas”.

 

Ao realizar a série de seminários sobre “O Futuro das Cidades e uma agenda urbana mais justa e sustentável pós-pandemia”, estamos em busca de três grandes objetivos: por um lado, ampliar a consciência geral e estimular o conhecimento sobre os desafios que ora enfrentamos; por outro, referindo-nos a um público de jovens, em sua grande maioria recém-ingressos na universidade, propomos a cada um(a) refletir, mobilizar e criar alternativas para superação de nossas dificuldades. E, finalmente, inscrever este tempo sombrio na perspectiva da vida, da esperança no futuro!

 

Por que cidades? Segundo a ONU, em encontro realizado em 2019, mais de 50% da população mundial já vive em áreas urbanas e a expectativa é que este número alcance 75% em 2050. Ou seja, os grandes desafios das desigualdades, da crise climática e da tecnologia estarão concentrados nos ambientes urbanos, onde a população mundial estará largamente concentrada.

 

Este cenário desenha um futuro de muito planejamento e ações, que têm de se dirigir para a mitigação das consequências negativas dos fenômenos que estamos citando. O governo das cidades será cada vez mais essencial para a qualidade de vida da população. Os processos de descentralização da implementação de políticas públicas também vão continuar acelerados e, por outro lado, crescerão consideravelmente as questões de concertação e tessitura de alianças globais para endereçar essas temáticas.

 

Neste sentido, as questões ligadas ao futuro da humanidade estarão igualmente vinculadas às escolhas que serão realizadas pelos governos locais nas próximas décadas e, ousamos afirmar, o próprio futuro da democracia realizadas pelos governos locais nas próximas décadas e, ousamos afirmar, o próprio futuro da democracia dependerá de a capacidade de atores locais pressionarem governos e sistemas políticos no sentido da ampliação dos espaços de governança e inovação estatais.

 

A organização de nossas discussões visa alcançar o objetivo de reunir especialistas de várias áreas de conhecimento para iniciarmos um processo de construção coletiva desta perspectiva de novas políticas públicas adequadas às exigências de nosso tempo.

 

Mindset sobre o nosso futuro, a juventude e suas possibilidades, a mobilidade, o urbanismo, o desenvolvimento econômico, a infraestrutura, as políticas de financiamento das ações urbanas, as questões da inovação, participação e nova governança, além das políticas sociais centrais, de segurança, educação e saúde estarão todas em nosso radar, através da voz de 17 especialistas brasileiros, espalhados por todo o país e inclusive no exterior. Ao final, um e-book, para registrar nossas discussões e orientar novas abordagens sobre os diversos temas levantados durante as discussões.

 

Por que agora? Poderíamos responder a esta pergunta de diversas maneiras. Vamos optar por três delas, apenas.

 

Em primeiro lugar, a geração para a qual formulamos este conjunto de discussões desfruta hoje de alguns privilégios: é a primeira geração inteiramente adaptada às novas formas de comunicação digital, redes sociais e progressiva expansão das demais tecnologias digitais. Os que nos acompanham agora, ainda têm igualmente o privilégio de serem testemunhas dos esforços gigantescos que a ciência está patrocinando para ajustar-se às exigências de uma pandemia letal, que vem mudando radicalmente nosso modo de vida.

Todavia, apesar dos privilégios, vivem também um período gravíssimo de dificuldades. É a primeira geração que experimenta os efeitos e exigências da mudança climática. Se são filhos da tecnologia, são também filhos e responsáveis pela “correção” dos rumos de nossa vida na Terra. Óbvio que se trata de uma tarefa solidária com as demais gerações, mas já é, em realidade, a geração “futura” para qual gente como eu, com 51 anos, lega um presente nada promissor de desafios ambientais.

 

A outra enorme dificuldade que viverão está relacionada às mudanças econômicas profundas que a tecnologia digital já nos apresenta. Transformações importantes em relação à produção, consumo e, muito especialmente, o emprego, numa era em que o conhecimento e os dados são a mola propulsora da riqueza e bem-estar da população mundial. Dito de outro modo, esta geração que entra agora na UFPI tem à sua frente o desafio de três séculos de problemas relacionados às desigualdades.

 

Dois outros pontos merecem igualmente atenção quando respondemos à questão do porquê agora.

 

Vivemos um tempo de avanços inimagináveis, mas também de retrocessos difíceis de compreender, diante do contexto de acúmulo de conhecimento e tecnologia que vivenciamos. Em todo o mundo, e não somente no Brasil e em Teresina, grassa uma compreensão política que ameaça a democracia, simplifica problemas complexos e nega a realidade da pandemia, da diversidade social e da mudança climática. Ao redor do mundo, a democracia está em risco e, com ela, enormes avanços civilizatórios que o século XX nos legou.

 

Finalmente, temos de olhar para o contexto internacional e nele nos encontrarmos com uma realidade inteiramente nova na história mundial. Pela primeira vez, temos duas nações polarizando hegemonia, ambas contando com poderes militar, tecnológico e econômico sem precedentes. Se há algumas décadas discutíamos sobre o “fim da história”, como consequência do fim da URSS e das experiências de socialismo real, creio que hoje podemos falar de uma outra conjuntura, em que as relações de mercado prevaleceram mundialmente, sob a égide de dois tipos de sistemas políticos absolutamente distintos.

 

Esta série de seminários é um convite para que acompanhemos tudo isto, instigando e provocando reflexões sobre tantos temas. Este “agora” se dá em um dos momentos mais desafiadores da nossa história. Também é momento de convocar a juventude para mudar e mobilizar suas energias mudancistas, tão necessárias quanto jamais foram!

 

Por fim, uma nota importante. Entre tantas tragédias pessoais decorrentes da Covid-19, de tantas perdas em milhares de lares, nós, teresinenses, perdemos uma grande liderança, em circunstâncias trágicas. Este seminário também é uma homenagem ao ex-prefeito Firmino Filho que sempre esteve tão fortemente ligado à ciência e ao futuro, preocupado em construir uma cidade de Teresina capaz de enfrentar os desafios de se tornar uma cidade sustentável, igualitária e democrática.

 

Trata-se, portanto, de um chamado de esperança e mobilização da juventude, para que não esmoreça e construa um novo caminho!

 

 

¹ Washington Bonfim é Doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Professor do Depto. de Ciências Sociais (UFPI) e especialista da Rede Juntos.

² Este artigo foi originalmente publicado no blog da CLP para o Estadão.