Curitiba 2035 e o desenvolvimento urbano da capital paranaense

 

 Introdução 

O Curitiba 2035 é fruto de uma parceria entre a Comunitas, a Prefeitura Municipal de Curitiba e o Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Sistema Fiep), e tem foco na mobilização e engajamento da sociedade civil para a construção de diretrizes de longo prazo, as quais devem nortear as políticas de desenvolvimento urbano da capital paranaense nos próximos anos.

O objetivo do projeto foi construir, por meio de parcerias entre diversos setores (público, privado, universidades e sociedade civil organizada), um plano de ação de longo prazo para a capital paranaense, criando um ambiente urbano capaz de desenvolver e atrair pessoas, empresas e investimentos focados na inovação, e servindo como modelo a ser adotado por outras cidades do Brasil e do mundo.

A iniciativa foi realizada em duas fases: a primeira foi dedicada à articulação de parcerias em encontros temáticos, os quais contaram com a participação de mais de 300 pessoas para reflexão sobre tendências de futuro para as cidades e definição das 9 áreas prioritárias para o projeto. Ao todo foram realizadas 36 reuniões de trabalho de seus grupos temáticos, mobilizando de mais de 100 instituições.

Como resultados, houve o lançamento e publicação de um Roadmap Estratégico, o qual contém os resultados sistematizados do plano e o caminho a ser trilhado para a implementação de todas as mais de 1.000 ações definidas conjuntamente para o futuro da cidade. Também foi disponibilizado para a sociedade um dashboard com os principais indicadores do planejamento, de modo a facilitar o monitoramento sobre a evolução das ações, além da criação do próprio site do projeto, o qual reúne todos esses documentos, informações e encaminhamentos do plano.

A segunda etapa teve como finalidade implementar e fortalecer a Governança do projeto, quando foi construída uma Matriz de Responsabilidades entre todos os setores da sociedade, com o objetivo de atribuir as várias funções na realização das ações estabelecidas no projeto. 

 

 

 Por que é inovador? 

A partir de uma governança compartilhada e com foco no longo prazo, o Curitiba 2035 tem o propósito de preparar o município para um crescimento ordenado e em sinergia com os princípios de sustentabilidade, aproveitando de forma consciente as oportunidades e os investimentos inerentes à cidade, priorizando a qualidade de vida e o bem-estar da população.

 

 Desafio / Diagnóstico 

Atualmente,  com o crescimento da urbanização e o desenvolvimento das cidades, há um conjunto complexo de demandas da sociedade, o qual exige não só soluções estruturantes, como também perenes, já que os dois maiores desafios à melhoria das condições de vida urbana estão relacionadas à ausência de visão compartilhada de futuro e à dificuldade de constância de programas e projetos, seja na gestão pública ou privada. 

O foco nas ações de curto prazo e sua respectiva descontinuidade acabam por prejudicar a população e suas demandas, uma vez que dificulta o acúmulo de aprendizado de experiências passadas e onera o sistema com contínuos reinvestimentos em soluções paliativas. O planejamento estratégico, além de envolver diversos atores para que possam construir juntos as diretrizes para o futuro de suas cidades, permite que os esforços empreendidos ao longo dos anos possam se tornar perenes e sustentáveis, transformando a maneira de se fazer gestão pública no país. 

A capital paranaense é reconhecida internacionalmente por sua tradição e consistência no planejamento da cidade, principalmente por seu plano de desenvolvimento urbano, o qual buscou desde a década de 1940 a integração das estruturas físicas e funcionais da cidade, orientando seu crescimento de forma linearizada. Segundo um levantamento feito desde 1993 pela Organização das Nações Unidas, baseado em indicadores de educação, renda e longevidade, o município destaca-se por estar entre as 10 melhores cidades brasileiras para se morar, sendo também considerada a “capital ecológica brasileira” e “capital modelo”, por ter uma área verde de 64,5 metros quadrados por habitante. 

Além do respeito às diretrizes do Plano Diretor, durante consecutivas gestões, houve um esforço para encontrar soluções criativas, de baixo custo, apoiadas em tecnologia local e que levassem em consideração os aspectos sociais e culturais na cidade. Entretanto, mesmo com esta tradição em inovações urbanas, há alguns anos cresceu entre diversos setores da cidade a percepção de que tais ações baseadas em planejamento e visão de longo prazo precisam ser retomadas, desta vez com a inclusão de toda a sociedade neste processo, uma vez que ele não é mais entendido como uma responsabilidade exclusiva da administração municipal. 

O projeto Curitiba 2035 retomou o “Curitiba 2030”, que foi idealizado em 2010 pelo Programa Cidades Inovadoras, uma parceria entre o Sesi e o Senai do Paraná, e que pretendia apontar um caminho para posicionar a capital paranaense em um horizonte de 20 anos no patamar das principais cidades inovadoras do mundo. O projeto inicial enfrentou desafios justamente no engajamento da população e, por isso, teve dificuldades para ser implementado, o que tornou ainda mais importante a participação da sociedade na fase de retomada.

 

 Estratégia 

O projeto Curitiba 2035 buscou promover o protagonismo da sociedade civil no processo de construção do futuro que deseja para a cidade. De forma apartidária, visou também orientar a atuação de agentes públicos e privados que investem no município, buscando o crescimento sustentável e respostas efetivas às demandas da população e às tendências sociais e econômicas.

Antes restrito à administração municipal e seus respectivos órgãos de planejamento urbano, na nova fase o projeto visou atender às expectativas cada vez mais crescentes de diversos setores da sociedade na cocriação deste plano, acreditando que a mobilização dos munícipes comprometidos com o futuro da cidade é fator determinante para que todos os esforços empreendidos e os resultados alcançados ao longo dos anos possam se tornar verdadeiramente perenes, além de fortalecer o controle social com a consolidação dos conselhos das cidades. 

Dessa forma, desde o início do projeto, os principais representantes do governo municipal, estadual e da região metropolitana, universidades, empresas, terceiro setor e sociedade civil foram convidados a se envolver em todas as etapas do Curitiba 2035, inclusive concedendo seus espaços e infraestrutura necessários para a realização dos encontros do projeto, como forma de estimulá-los a participar, validar, construir e monitorar as ações do plano.

 

 Desenvolvimento 

O projeto Curitiba 2035 foi realizado em duas etapas, sendo a primeira focada na articulação e estabelecimento de parcerias em encontros temáticos, com o objetivo de refletir sobre tendências para cidades e definir as áreas temáticas prioritárias para o projeto, as quais foram:

 

● Cidade da Educação e do Conhecimento; 

● Desenvolvimento Socioeconômico; 

● Mobilidade e Transporte; 

● Saúde e Qualidade de Vida; 

● Meio Ambiente e Biodiversidade; 

● Coexistência em uma Cidade Global; 

● Planejamento e Gestão Urbana e

● Segurança e Governança. 

 

Pautada na articulação de parcerias estratégicas através de metodologias participativas, a construção do projeto contou com a presença de instituições e stakeholders relevantes da cidade. Esta etapa tornou possível a criação de um Comitê Executivo e um Comitê Gestor, importantes pontos focais para o andamento do projeto. 

O Comitê Executivo foi composto por um grupo fixo de representantes das instituições envolvidas no projeto (Comunitas, Sistema Fiep, Prefeitura Municipal de Curitiba e Instituto Arapyaú, Instituto Atuação e Instituto Votorantim). Com reuniões mensais, o Comitê Executivo acompanhou todas as etapas da reflexão prospectiva, garantindo que atividades e processos previstos fossem operacionalizados dentro do acordado.                                                

Já o Comitê Gestor foi formado com diversos atores estratégicos da sociedade civil local, como acadêmicos, empresários, membros do terceiro setor e do governo. No total 20 organizações foram inseridas para contribuir com a garantia da qualidade técnica do processo, sensibilizando instituições e stakeholders e disseminando as etapas e resultados parciais. 

Para subsidiar as reflexões dos processos de inteligência coletiva, o Observatório Sistema Fiep produziu estudos e pesquisas. Os conteúdos elaborados foram: 

 

● Panoramas Quantitativos: sistematização de indicadores, séries históricas e estatísticas relacionados à situação atual da cidade e das áreas temáticas consideradas importantes no processo de planejamento;

● Estudos de Tendências: identificação de fenômenos sociais e tecnológicos relacionados a dinâmicas presentes e futuras da vida nas cidades;

● Benchmarking de Cidades: pesquisa sobre experiências inspiradoras de cidades inovadoras, consideradas como referências no contexto global.

 

A segunda fase teve como objetivo implementar e fortalecer a Governança do projeto, a qual ficou definida que seria constituída por lideranças e secretarias de cada um dos 9 Comitês Temáticos. Nas reuniões, além de ter sido definido o modo de funcionamento e cronograma das reuniões desses Comitês, também foi construída uma Matriz de Responsabilidades, ferramenta que visou facilitar o engajamento para a execução das ações no município através da atribuição de funções entre os membros da Governança.

 

 Ferramentas 

Foram escolhidas duas principais metodologias para a execução do projeto: a Prospectiva Estratégica e o Roadmapping. A Prospectiva Estratégica busca a reflexão e a criação coletiva para encontrar meios de ação. Já o método Roadmapping, visa trazer grupos de especialistas que, de forma compartilhada com outros participantes envolvidos, auxiliaram a criação de perspectivas em curto, médio e longo prazo.

A partir destas duas metodologias, foram estimuladas a criação de estruturas voltadas para as seguintes etapas de realização:

 

● Articulação de parcerias estratégicas;

● Realização de estudos preparatórios;

● Engajamento dos atores-chave em encontros reflexivos;

● Produção de inteligência coletiva;

● Sistema e validação das construções coletivas.

 

As dinâmicas de inteligência coletiva da primeira fase do projeto foram caracterizadas pela identificação e mobilização de atores estratégicos para as reflexões. Sequencialmente, foram realizados 16 encontros contemplando 457 participações na iniciativa. 

 

Todos os encontros foram essenciais para o processo, porém alguns se mostraram determinantes, tais como:

 

● Painéis Estratégicos: com participantes tomadores de decisão e formadores de opinião na cidade, bem como grande pensamento estratégico e capacidade de pensar e influenciar o futuro do município, os 2 painéis objetivaram definir as 9 temáticas estruturantes do projeto e, posteriormente, o segundo visou apresentar e validar coletivamente os resultados das reflexões prospectivas realizadas;

● Painéis Temáticos: os especialistas participantes foram convidados a refletir sobre a situação atual do município e sobre as tendências globais para cada uma das áreas priorizadas, resultando na construção de visões de longo prazo, identificação de barreiras e fatores críticos de sucesso, bem como na proposição de ações de curto, médio e longo prazos, necessárias ao alcance de cada visão definida.

 

Buscando garantir que um maior número de especialistas pudesse cocriar o futuro desejado para a cidade, foi disponibilizada uma plataforma web para proposição de ações. Os participantes dos encontros puderam continuar a contribuir e novos participantes foram convidados a intervir no processo com sugestões de ações, em diferentes horizontes temporais e em todas as temáticas trabalhadas.

Além dessa plataforma, o aplicativo do Colab, rede social que atua promovendo uma sinergia entre cidadãos e suas prefeituras, também foi utilizado para comunicar grandes tendências que impactam as cidades.  

Na segunda fase do projeto, foi construída uma Matriz de Responsabilidades, ferramenta que auxiliou a visualização dos responsáveis pelas ações que compõem o planejamento. Ela é composta por: responsável; ação; priorização; indicadores e status da ação.

 

 Resultados 

Após a realização de reuniões e painéis estratégicos com especialistas, que contaram com a participação de mais de 800 pessoas, a primeira fase do Curitiba 2035 – denominada “Inteligência Coletiva” foi encerrada com a definição de 1.148 ações de curto, médio e longo prazo, dentro das nove áreas temáticas.

Os resultados dos trabalhos realizados nesta primeira etapa foram sistematizados em um documento denominado Roadmap Estratégico, o qual  sintetiza o caminho a ser percorrido para a concretização das ações planejadas, e, por conseguinte, do projeto de futuro da cidade. Neste documento, há um capítulo específico para cada uma das áreas prioritárias, as quais foram desdobradas em: situação atual, visão temática, barreiras, fatores críticos de sucesso e ações.

O 2º Painel Estratégico, o qual marcou a etapa final da primeira fase do projeto, apresentou e validou todos os resultados das reflexões prospectivas realizadas e, na ocasião, foi disponibilizado para o público um dashboard de indicadores, estruturado para facilitar o acompanhamento sobre a evolução das ações definidas, o qual está disponível no endereço: http:// www.curitiba2035.org.br/indicadores.

Em novembro de 2018, a Prefeitura de Curitiba deu início à segunda etapa do projeto, intitulada de “Engajamento Coletivo”, a qual foi dedicada à formação e fortalecimento da Governança, responsável por orientar as diretrizes propostas no planejamento, bem como por aproximar e integrar os atores envolvidos na implementação das ações. 

Nesta fase, os principais resultados foram a escolha dos integrantes e do modo de funcionamento da governança; realização de reuniões de lideranças e secretarias dos comitês temáticos para seu acompanhamento e orientação das ações; definição e apresentação da Matriz de Responsabilidade consolidada e estabelecimento das ações de continuidade.

Também foi realizada a articulação com lideranças da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) e a aproximação com o Governo do Paraná, incluindo a dimensão metropolitana e estadual no projeto, e corresponsabilizando mais atores na execução das ações definidas para que a cidade alcance a visão de futuro desejada.

 

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